Lado Inverso

Um texto romântico, finalmente

Janeiro 18, 2010 · Deixe um Comentário

O que você vai achar de mim se eu não viajar? Uma idiota. Ela foi. Pegou o primeiro avião. O segundo. O terceiro. E chegou. E quando chegou, lembrou dele. E enquanto ela viajava, ele pensava se ela já teria chegado. E quando ela entrou no hotel, olhou a cama king size e pensou nele. E ele pegou o carro e foi pra praia com os amigos. E a cada onda que pegava no mar, lembrava dela. E ela visitou montanhas com neve, e brincou de escrever o nome dele no gelo. E ele rabiscou o nome dos dois na areia. E quando chegou o inverno para ele, chegou o verão para ela. E ela foi pra praia. E lá olhava para o mar e lembrava dele. E ele colocou o cachecol que compraram juntos, e lembrou dela. E quando comeu fondue com a família, deixou uma cadeira vazia ao seu lado. E outro verão chegou para ele. E ele de novo foi pra praia. E de novo pensou nela. E quando passou protetor solar nas suas costas, lembrou que era ela quem passava. E ela, no frio, de novo escreveu o nome dele na neve. E quando caiu do ski imaginou que ele riria se estivesse junto. E no aniversário dele ela comprou um bolo e apagou as velinhas, sozinha. E no aniversário dela, ele abriu uma champagne, serviu duas taças, e só tomou uma. E numa noite estrelada da meia estação, ele olhou para o céu e viu a estrela que eles tinham escolhido, juntos. E na mesma noite ela olhou para o céu, viu a mesma estrela, e sorriu. E quando choveu muito, ele saiu de casa com o guarda-chuva que ela tinha dado. E ela, quando comeu marzipan, lembrou que era ele quem gostava. E quando o inverno chegou de novo, ele comeu pinhão e pensou nela. E ela, no verão, tomava sorvete de todos os sabores que ele gostava. E tomava dois, três banhos por dia, porque era calor, e lembrava dele. E usava o biquíni que tinha ganhado dele, de Natal. E ele, quando chegou o verão, foi pra praia com os amigos, mas não surfou, porque estava com a perna quebrada. E lembrou do que ela assinou no seu gesso, quando quebrou o braço. E riu. E no aniversário dela, ele foi jantar sozinho. E no aniversário dele, ela colocou uma música bem alta, e dançou. E ela, sempre que voltava do trabalho olhava para o céu e procurava a estrela dos dois. Ele se mudou para uma cobertura, e todas as noites caçava as estrelas, e lembrava dela. E quando via uma estrela cadente, fazia o mesmo pedido. Até que um dia, ela voltou. E ele foi buscá-la no aeroporto. E quando se abraçaram, um abraço apertado, demorado, os dois pensaram, em silêncio, a mesma frase, que repetiam um para o outro, na juventude. O amor tem razões que a própria razão desconhece.

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Acorda menina

Novembro 11, 2009 · 3 Comentários

Morri. Morri ontem de manhã. Acordei cedo, tomei o mesmo café preto e peguei o mesmo ônibus de sempre. Desci na mesma parada, e assisti às mesmas aulas de quartas-feiras, repletas de vaidade, hipocrisia e uma dose de saudosismo. Saí mais cedo. Peguei o ônibus do outro lado da rua, passei pela praça, vi o menino tocando violão e desci no Centro. Fiz compras e, em casa, encomendei um livro pela internet. Almocei. Depois disso não lembro de mais nada. Estou morta. E o pior é que amanhã será tudo igual.

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Fevereiro de 2006

Novembro 4, 2009 · 1 Comentário

Ainda te vejo pelas frestas que sobraram. São poucas, escuras e trêmulas, mas são tuas. Sobraram do nosso passado, se algum dia existiu. São os restos dos nossos sonhos, do futuro que construiríamos juntos e que desabou na primeira camada. Não sobreviveu a ventanias e à oposição. Logo se desfez, como um nó que ainda não está entrelaçado e já é rompido. Mas então, pode-se chamá-lo de nó? As frestas te dizem diferente, ocultam partes de ti e mostram outras. Aquele que conheci é o mesmo, mas às vezes não parece. No meu lugar há sombras, não sei se bem preenchidas. Não é possível ver se tu também buscas estas frestas, tentando olhar o passado, relembrar os momentos e me ver de relance. Não há indícios de que tu estás marcado como eu estou. Sou composta pelas lembranças da tua companhia e pelos poucos rabiscos que fizemos desordenadamente nos registros da vida. Talvez seja ilusão minha, mas pelas frestas enxergo um arco-íris que deixa a ti melhor do que és. Não te desqualifico, nem te faço menor, mas tal tom faz com que o meu passado seja colorido, idealizado por um ar de esperança, que embora amassado ainda está presente em mim. E sabe, não enlouqueço quando vejo no lugar do tesouro, um abraço, de relance, que me acelera o coração como quem diz ‘sonhar ainda não é proibido’.

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Num papel amarelado…

Setembro 13, 2009 · 1 Comentário

Te escrevo para calar meus soluços. Mas tudo o que consigo é chorar cada vez mais. Custei a tentar marcar o papel com as minhas palavras, custei a tentar carimbar os meus sentimentos. E já não tenho esperanças de que eu deixe de sofrer depois de escrever para ti. Talvez até amanhã as lágrimas cessem, talvez por um tempo eu deixe de pensar em ti. Mas daqui alguns dias, enquanto eu estiver no ônibus, vou ouvir uma voz parecida com a tua e o meu peito vai voltar a disparar. Ou então, quando eu estiver ouvindo rádio, vou escutar Metálica e tudo que virá na mente será aquela nossa tarde de quinta-feira, juntos. Como calar meu coração? Como explicar para ele que os teus carinhos duraram por um mês ou dois, que foi só uma experiência e que ele tem de se acostumar de novo com a solidão? Como explicar que me enganei, que nos enganamos juntos – eu e ele –, que abrimos nossas portas para alguém errado? E como dizer que esse alguém era errado, se tudo o que eu sei é que ele era certo demais?

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só mais um clichê?

Agosto 5, 2009 · Deixe um Comentário

eu ontem senti saudades. do teu perfume, do teu abraço, do teu jeito estranho de me admirar dormindo, enquanto sequer estou sonhando. eu ontem senti saudades. uma saudade boa, uma saudade de menina, de quem corre com suas tranças voando. e se na vida eu não sentir mais nada, bastou. valeu pela juventude inteira. posso vir a gritar, e até morrer, mas de saudade fui feliz.

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O último homem

Julho 28, 2009 · 3 Comentários

Eu era só. Um homem escondido por entre amigos. Meio perdido por entre os trilhos. Eu era só. Um homem parado, um pouco cansado, um pouco levado. Eu era o que não sou. Um homem sentado, um homem esquecido. Um homem jogado, um homem partido. Procurei meu coração e não achei. Já não sou homem, não me escondo, não me parto. Não me levo, não deixo que me levem. Eu não sou nada. E sendo nada, eu vivo o vazio.

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Extinção

Julho 27, 2009 · 2 Comentários

Meu coração nasceu em cativeiro.

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Chega de palavras

Maio 24, 2009 · 1 Comentário

Andei por aí sem rumo e te encontrei no meu travesseiro.

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Sobre o sentido da vida e reticências

Abril 17, 2009 · 3 Comentários

“Dostoievski,  no seu livro Recordações da casa dos mortos, em que descreve a vida de prisioneiros na Sibéria, disse haver descoberto um trabalho que os enlouqueceria. Bastaria que houvesse duas piscinas, uma cheia d’agua, outra vazia. O trabalho dos prisioneiros seria transferir com baldes a água da primeira piscina para a segunda. No dia seguinte, transfeririam a água da segunda piscina para a primeira. No terceiro dia, transfeririam a água da primeira piscina para a segunda. E assim por diante. Não era um trabalho excessivamente árduo: carregar baldes de água. Por dez anos, por trinta anos, pelo resto da vida. Sempre uma piscina estaria cheia e outra estaria vazia. O que enlouquece não é o trabalho forçado; é a falta de sentido.”

Hoje, eu sou a água dessas piscinas. E só.

E de novo parafraseando Rubem Alves, vou explicar minha ausência do blog nesse tempo:

“Faziam silêncio não por não ter nada a dizer, mas porque o que tinham a dizer não cabia em palavras.”

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Silêncio, arte e amor.

Dezembro 20, 2008 · Deixe um Comentário

Ontem você partiu. E agora, se ainda sou mulher, sou uma mulher partida.

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desOrDEM.

Dezembro 4, 2008 · 1 Comentário

Eu prefiro o caos. Porque o caos me instiga a decifrá-lo. E com o silêncio o que se faz?

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Cegueira

Novembro 30, 2008 · Deixe um Comentário

Já não tenho olhos pra você

Que a vida inteira me fez crer

Que o destino é nosso amigo.

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No aeroporto

Novembro 21, 2008 · 2 Comentários

Me despedi de ti de olhos fechados, porque achava que se não te visse indo embora, você não partiria. Seria só uma ausência momentânea, duas vidas que se afastam por um tempo, mas que depois se reencontram e voltam a, juntas, dançar. Mas a saudade não abandona os amantes. E hoje sinto falta justamente da tua habilidade de me fazer feliz a todo instante. De me criticar com amor e de curar minhas irritações com a rapidez de um abraço. Sinto falta de te ver dedilhando o violão, enquanto diz que eu não tenho ritmo, que música não é pra mim. E logo pedia pra eu cantar uma canção, a nossa canção, e me ensinava a tirar notas musicais – apesar da minha falta de talento. Achei que não fosse sentir falta da tua malandragem, da tua estúpida mania de intercalar gírias e palavrões. Achei que fosse ser um alívio não ouvir tuas piadinhas a cada vez que se lembrava da nossa diferença de idade. Nada mais tem graça depois que tu partiu. Já não espero ouvir tua voz quando atendo ao telefone, nem mais penteio o meu cabelo pro lado, como tu tanto gosta. Já não me importo de repetir a roupa de ontem, hoje. E agora, quando penso em ti – a todo instante -, eu fecho os olhos. E se fecho os olhos é porque, de olhos fechados, eu ainda sou feliz.

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Fictícia

Outubro 22, 2008 · 1 Comentário

Eu tava no ônibus com uma dessas câmeras fotográficas da Famecos, com aquela sacola preta enorme e feia que só a Famecos tem. E enquanto eu arrumava o ISO, o diafragma e mais todas essas balaquinhas, um cara – meio bêbado, meio louco – me tirou pra grande jornalista, pra pessoa que vai mudar o planeta. E tentando ser poeta, ele disse: “O fotógrafo vê o que ninguém vê, sente o que ningém sente e, acima de tudo, mais do que ler as entrelinhas, ele as descobre”.

Então tá.

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A Alma Imoral

Outubro 14, 2008 · Deixe um Comentário

“Quantos de nossos esforços são, na verdade, oferendas ao nada?”

Nilton Bonder / Clarice Niskier

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Pra não dizer que não falei das flores

Outubro 10, 2008 · 2 Comentários

Arthur Delain: “Em 1968, acordei de madrugada sem nada para fazer. Às vezes, acho que ainda não voltei a dormir”.

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Orfanatrófio lotado

Setembro 26, 2008 · 4 Comentários

O ônibus passa pela Rua do Arvoredo, enquanto eu vejo rostos pálidos puxando sacolas pesadas e olhos murchos que já não levam nada. Enquanto eu ouço gente gritando sem falar nada e ouvidos surdos compondo versos… E penso que ainda carrego, cantando, o melhor de mim.

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Eles passarão…

Setembro 5, 2008 · 2 Comentários

A família que me hospedou no intercâmbio era normal. Normal demais. Educada, falava por favor e obrigado sempre. Não me deixava lavar a louça nem arrumar a cama. Doces, as crianças só podiam comer no final de semana. E refrigerante só light. Em mim não colocava limites. Dava para perceber que se esforçava para ser boa anfitriã. Mas era normal demais.

 

Nesse tempo, brinquei com as crianças todos os dias. Corria pelo corredor com elas, me escondia atrás da porta para dar sustos, virei o que nunca fui: irmã mais velha. Ensinei palavras em português, cantei Saltimbancos e até tentei fazer com que falassem algumas frases na minha língua. E quando os pais negavam guloseimas, eu dava escondido, enchendo seus bolsos de balas.

 

Mas no meu último fim de semana no Canadá, aconteceu algo muito estranho. As crianças invadiram meu quarto e fizeram barulho. Até aí, normal. Mas gritaram. Berraram. Até que me acordei. E de pijama fui para a sala ver o que estava acontecendo. Encontrei toda família reunida cantando parabéns numa felicidade contagiante. Um bolo, na forma de coração, estava sobre a mesa. E todos em volta da gaiola do passarinho, que completava cinco anos.

 

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Julho de 2007

Agosto 22, 2008 · 3 Comentários

Último Gole

“Prometi que não derramaria nenhuma lágrima por causa dele. E chorei lágrimas honestas, que escorreram sem esforço algum. Foi tudo natural. As palavras me ardiam o peito sem dó. Minhas mãos permaneceram gélidas enquanto meu corpo se destruía aos poucos. Parecia o fim do mundo e naquele momento era.

Aos poucos as lágrimas secaram. O peito já não mais ardia. O mundo, para minha surpresa, continuou a girar.  E me recuperei. A dor se manteve por mais um tempo. Depois, quase tudo sarou, mas as palavras que ouvi se mantiveram em mim. Estão todas acumuladas em minhas tristes lembranças. Sou incapaz de me desfazer delas, tais como feridas eternas. Sinto-me presa ao passado, tempo no qual eu podia sonhar. Encontro-me num ceticismo doentio, desacreditado e perpétuo.

Liberto-me aos poucos e já não há palavras que me doam.

Acho que estou morta.”

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Leda

Agosto 12, 2008 · 3 Comentários

Filha de um casal de médicos, minha mãe nasceu em Porto Alegre, mas morou em São Sebastião do Caí até os 10 anos. Quando veio a contragosto de muda para a capital, deu sua boneca preferida, trazida de uma viagem aos Estados Unidos, para sua madrinha e vizinha cuidar.

 

Quando completei 10 anos recebi a visita da Dona Zilda, já velhinha, e de presente a mesma boneca, que já veio com nome: Leda. Veio também com alguns arranhões e marcas que minha mãe deixou, rastros da sua infância.

 

Vendo o presente, senti um misto de fascinação e de horror. Estava acostumada a rasgar as embalagens em busca dos presentes, sempre advertida pela minha mãe, que desejava reaproveitar os papéis. Nunca tinha recebido nada de forma tão simples. A boneca, toda reformada, era sobrevivente de outros tempos e, mesmo horrível, fora o presente mais original que até hoje eu ganhei.

 

Guardo a Leda, com a cabeça solta e sem cabelos, numa sacola verde no fundo do meu armário, para um dia entregá-la para minha filha. E não importa o quão destruída ela esteja, as marcas da minha infância nunca me assustam.

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Sara

Agosto 8, 2008 · 4 Comentários

Sentou-se, no ônibus, ao lado de um desconhecido e foram felizes para sempre.

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Endecha, não deixa, não deixa

Julho 5, 2008 · 3 Comentários

Todos já tivemos um tio chato e inadequado, que pensa que os sobrinhos são alienígenas burros e toscos. O meu se chamava Jorge. O irmão da minha mãe me conheceu antes mesmo de nascer e sempre achou que sabia mais do que eu.

 

As minhas grandes aventuras de infância se resumiram a fugir do tio Jorge. Em todos os almoços de família, ele chegava gritando meu nome com aquela voz rouca. Eu partia em busca de um esconderijo próximo. Quando o silêncio pairava perto de mim, saía lentamente do meu abrigo e me apresentava na sala, sempre protegida pelo Bob, meu urso de pelúcia. Mas o medo ainda estava presente e eu ansiava que o tio me visse, que apertasse com força as minhas bochechas.

 

Na minha juventude, os gritos do tio Jorge cessaram. Talvez porque ele tenha se dado conta de que eu não mais cabia nos esconderijos apertados da minha infância. Mas, em cada encontro, ele me questionava sobre os significados das palavras da língua portuguesa, exigindo que eu lesse o dicionário, aquele livro cheio de palavras inúteis. O que é um próton? Como se chama o ovo do piolho? Como eu odiava aquelas perguntas prontas, o jeito estúpido que o tio tinha de se achar superior. E por isso, sempre que eu tinha alguma dúvida, consultava o dicionário, lia na enciclopédia, buscava argumentos, discursava diante do espelho, tudo para que quando eu encontrasse o tio Jorge, eu pudesse mostrar como eu estava grande, como eu sabia das coisas.

 

Numa tarde de abril, enquanto eu procurava o significado de endecha, minha mãe me avisou que o tio Jorge tinha morrido. Achei que fosse uma brincadeira dos dois e que logo ele entraria no meu quarto com aquele sorriso insuportável, fazendo as piadas bestas de sempre. Mas, precisei aprender sozinha os diversos significados da palavra libra e a diferença entre limão-galego e limão-cravo.

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“…”

Junho 26, 2008 · 1 Comentário

Enquanto forem só reticências, e não um ponto final, tudo bem.

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Traduzir-se

Junho 22, 2008 · 1 Comentário

Traduzir-se
Ferreira Gullar


Uma parte de mim
é todo mundo
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte é estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
é linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida e morte -
será arte?

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Das rápidas

Junho 8, 2008 · 1 Comentário

Não entendo como alguém consegue escrever um texto a lápis. Estranho o hábito de carimbar verdades no papel aguardando para apagá-las. Palavras devem ser cravadas, ditas para a eternidade.

Não gosto de pessoas em cima do muro, de quem fala “tanto faz”. É preciso ter opinião, dizer com força, afirmar até o fim – mesmo que se esteja errado.

Abdiquei do lápis aos doze anos. Junto à tinta vieram as certezas e a responsabilidade de falar para sempre. Às vezes encontro algum lápis perdido nas gavetas e até brinco de usá-lo. Porque temer o inimigo é pior.

Não simpatizo com o hábito de depender do apontador para expressar as idéias. Tenho um amigo que se esmera tanto apontando o lápis que esquece o que vai escrever. Sinceramente, prefiro palavras tortas, rasuradas, mas espontâneas.

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RobertoRobertoRoberto

Junho 1, 2008 · 1 Comentário

Como eu odeio o Saramago! Nunca consegui ler este escritor! Começa por este nome ridículo. Vogais intercaladas por consoantes. Pares e ímpares. Como se estivéssemos brincando de simetria.

 

Admito, por um tempo meu sonho foi ler Ensaio sobre a cegueira. Que título grandioso! Eu anunciava nas rodas de conversa que este seria meu próximo livro e o Roberto sempre dizia para eu ir com calma, para eu esperar por mais um tempo. Madura. Era isso que ele dizia. Que eu devia esperar para estar madura.

 

Foi tudo culpa dele, do Roberto. Era férias e a nossa relação não ia bem. Nos encontramos para uma conversa importante e entre whisky e amendoins decidimos separar os travesseiros.

 

Resgatei minhas tralhas, meus restos que repousavam no lar dele. Em casa desfiz a sacola e libertei meus objetos. Lancei-os sobre o chão, malditos! Só aí que percebi o intruso literato. Ensaio sobre a cegueira, o livro que eu tanto quis ler tinha caído por entre as roupas!

 

Roberto sempre adiava a minha leitura e agora me entregava o livro. Eu podia imaginar aquele seu nariz, a testa quadrada, a expressão naval dos seus olhos enquanto ele dizia que esta era a minha hora. Que agora eu estava madura o suficiente para ler o meu gênio. Ele preferiu ser covarde, falar tudo isso sem palavras. Confesso que folheei página por página, procurei por entre as palavras do Mago uma carta escondida que pudesse me sarar.

 

Primeiro o que senti foi raiva. Raiva desse escritor, dessa cegueira, dessas páginas amareladas que tanto fediam. Fediam a perfume do Roberto. Tinham o cheiro daquela pele, daquele corpo, que eu tanto estava acostumada a sentir. Depois meu sentimento foi mais profundo. Ódio. Porque enquanto eu odiava esse livro, eu deixava de odiar o Roberto.

 

Saramago nunca me desceu. Não passei da terceira página e já nem quero passar. Não consegui ler Ensaio sobre a cegueira porque eu enxergo tudo. Tudo mesmo. Tudo de novo. Devagar. Aquele rosto de relance. E enquanto eu estiver enxergando o Roberto, vou preferir mesmo ser cega.

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Monte Royal

Maio 20, 2008 · Deixe um Comentário

Inspirada nas confissões da Júlia Otero (leia-se Otêro) a respeito da sua experiência na África do Sul, resolvi contar minha vivência, que é ironicamente parecida.

Fiz intercâmbio aos 16 anos, por pouco não foi aos 15. Levei na mala roupas, livros, sonhos juvenis e a vontade de mudar o mundo. Na minha cabeça jovem revolucionária, que abandonava o conforto do quarto aquecido e do travesseiro macio, eu rumava para a maior aventura da minha vida. E o Canadá parecia ser o país ideal para uma menina em plena adolescência se independizar dos pais. Lá os índices de violência são baixos, as pessoas são receptivas e o sistema de ensino é bom. A minha aventura seria no paraíso!

Esqueceram de me avisar que eu encontraria os maltrapilhos canadenses nos metrôs. Deixei o Brasil da miséria e dos problemas sociais para me deparar com criaturas sem teto! Depois do choque e do susto, senti pena. Seria cômico – se não fosse trágico – encontrar mendigos fluentes no inglês e no francês. Se fossem para o Brasil conseguiriam um bom emprego.

Fiz com eles, os pedintes, o que jamais ousei fazer no Brasil: os alimentei. O almoço que a família canadense me dava não era bom e aprendi com uma outra intercambista a colocá-lo sobre os telefones públicos, na própria estação de metrô. Nunca vi nenhum homeless pegando a embalagem de comida, sempre que eu virava para trás, depois de alguns passos, o pacote já tinha sumido.

Bonito, Gabriela, muito bonito. Mas por que durante este inverno eu alimentei os indigentes de Montreal se em toda a minha vida eu não fiz isso no Brasil? Procuro nas minhas esquinas algo que explique. Precisei ir embora para enxergar o que ficou do Brasil em mim. E no fundo eu sei que o que me tocou foi a surpresa. O inesperado. O velho em forma de novo. Eu me solidarizei aos sem teto canadenses para não ouvir os gritos dos famintos brasileiros. 

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LulaLá

Maio 20, 2008 · 1 Comentário

29 de outubro de 2006. Segundo turno das eleições. Vamos todos fingir que vivemos numa democracia e que escolher os nossos candidatos é bom. Mal sabemos que na verdadeira democracia não há obrigatoriedade de voto. Vamos todos juntos escolher os melhores, aqueles que não nos farão de bobos e que jamais colocarão seus próprios interesses na frente dos do povo. E depois acordaremos do sonho que terá durado menos de vinte e quatro horas. Voltaremos à realidade e de novo ouviremos escândalos e acusações que acabarão impunes novamente. E depois diremos que os candidatos não prestam, mas já vamos ter esquecido que quando tivemos oportunidade de colocá-los todos fora do senado, não o fizemos. Já nem lembraremos que eles estão lá devido ao nosso voto e que nos mantermos passivos a todos escândalos é também uma forma de nos desrespeitarmos. Estranho ter que escolher os candidatos, decidir sobre os próximos quatro anos do país verde e amarelo, quando não sei nem o que estarei fazendo no próximo mês. É complicado reclamar das falsas promessas e das frias ideologias, quando tantas vezes eu também me corrompo e opto pelo caminho menos recomendável. Estranho querer colocar ordem num país inteiro quando dentro de mim está tudo tão bagunçado. Temos mania de pensar que o que não nos diz respeito sempre é mais fácil. Pois vemos, quando temos a chance de mudar a administração, que nada!, preferimos manter tudo como está. Depois não adianta reclamar sobre a segurança, quando não nos sentimos seguros nem para trocar de candidato. Quando estivermos aptos a arcar com as conseqüências e admitir que a nossa escolha reflete no futuro de todo país, nos sentiremos mais confiantes não só diante das urnas, mas também diante do espelho.

 

 

Hmmm, não sei se ainda tenho essa vitalidade de um ano e meio atrás.

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Cirque du Soleil

Maio 18, 2008 · Deixe um Comentário

Cirque du Soleil, lindíssimo.

 

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O corpo do copo

Maio 11, 2008 · 3 Comentários

Minha infância foi lotada de perguntas sobre o ciclo das coisas. Por que o mundo gira numa só direção? Quem escolheu o sentido dos ponteiros do relógio? Por que vejo sempre o mesmo lado da lua? E por que o norte fica em cima e o sul, em baixo?

 

Foi na infância a primeira vez. Numa madrugada qualquer, levantei da cama e rumei, na ponta dos pés, até a cozinha. Abri a geladeira e alcancei a jarra. Não era sede o meu problema. Eu precisava de novas aventuras, queria sentir o famoso frio na barriga.

 

Depois disso, bebi água pelo bico da jarra por incontáveis vezes. E não foi só na meninice. Cresci, aumentei de peso, de tamanho, ganhei corpo e nunca mais me livrei deste vício desgraçado. Mas o que era igual, sempre igual, era a emoção de fazer isso escondida.

 

Quer saber, acho mesmo que todos deveriam beber um dia pelo lado contrário. Isto é se arriscar um pouco a ser diferente. Pois cada vez que encosto meus lábios no bico da jarra, sinto que por um ou dois segundos eu consigo inverter o ciclo do mundo.

 

 

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