-
Procure!
-
Entradas recentes
-
Links
Minhas tardes com Margueritte
“Um encontro pouco comum, entre o amor e a ternura, não tinha outra coisa. Tinha nome de flor e vivia entre as palavras. Adjetivos rebuscados, verbos que cresciam como a grama, alguns ficavam. Entrou suavemente desde o córtex até o meu coração. Nas histórias de amor há mais que amor. Às vezes não há nenhum ‘eu te amo’, mas se amam. Um encontro pouco comum. Eu a conheci por acaso no parque. Ela não ocupava muito espaço, era do tamanho de uma pomba com as suas penas. Envolta em palavras, em nomes, como o meu. Ela me deu um livro, e outro, e as páginas se iluminaram. Não morra agora, há tempo, espere. Não é a hora, florzinha. Me dê um pouco mais de você. Me dê um pouco mais de sua vida. Espere. Nas histórias de amor há mais que amor. Às vezes não há nenhum ‘eu te amo’, mas se amam.”
Publicado em Uncategorized
Bukowski
“É este o problema com a bebida, pensei, enquanto me servia dum copo. Se acontece algo de mau, bebe-se para esquecer; se acontece algo de bom,bebe-se para celebrar, e se nada acontece, bebe-se para que aconteça qualquer coisa.”
Charles Bukowski
Salvação
Estacionei o carro à sombra de uma árvore. A mesma que brincávamos, eu e meu irmão, quando a infância reinava. Retirei a chave da ignição, mas permaneci sentado. Olhei para o edifício ao meu lado direito. Apartamento térreo, persiana fechada. Luzes acesas – vi pelas frestas.
Atrás da janela meu pai me esperava. Velho. Desde que minha mãe faleceu, caminhava com bengala. E esquecia. Um dia não soube dizer meu nome, que ele mesmo escolhera, há setenta e quatro anos, em Rio Grande.
Tive dúvidas se envelhecer é uma dádiva ou um castigo. Ainda as tenho. Respirei fundo, enchi-me de coragem e tirei o cinto de segurança. Fiz movimento para abrir a porta do carro, mas parei. Envelhecer é uma merda.
As luzes continuavam acesas. O que o velho estaria fazendo? Televisão não assistia há muito tempo. Os amigos do dominó não o visitavam mais. E, com as insônias recentes, dormindo ele não estaria.
Deus, faça-me morrer antes! Não quero dar trabalho aos meus filhos. Custar-me-á muito desaprender a comer, beber, andar e falar. Quando for a hora, abençoe-me com a morte.
Eu sei. Eu sei que meu pai me esperou em seu apartamento por intermináveis tardes. Sozinho. Às vezes desci do carro e abri, eu mesmo, a porta de sua casa. Às vezes levei meus netos aos domingos, que brincavam pelo pátio dos fundos. Ele não falava muito, mas ficava feliz. Eu sei que sim.
Mas o que não esqueço, o que me dói na alma e no corpo, é de quando, covardemente, refugiei-me dentro de meu carro, embaixo das árvores. Sem coragem de descer, preferi ir embora.
Fui eu quem matou meu pai. A cada vez que ele ouvia os passos dos vizinhos, esperando que fosse seu filho, o velho morria um pouco. Deixou de viver a cada minuto em que eu ponderei se deveria visitá-lo ou não.
Vê-lo assim me custava saúde. Doía-me assistir seu fim. Meu pai fraco, magro, preferindo o silêncio ao diálogo. Ele, homem que tanto barulho fez na vida.
Quando caminhei para encontrá-lo, era tarde demais. Morto. Com oceanos calados nos olhos, aproximei-me do caixão do velho. Fechado. Pedi que abrissem. Logo! Abracei-o forte. Longamente. Abraços atrasados.
Implorei desculpas. Ele, o mesmo silêncio da vida. Pedi perdão enquanto. Chorei. Ele chorou através dos meus olhos.
*
Hoje é sexta. Agora eu sou o velho que espera ansiosamente pelo domingo, para as visitas da família – que já me matou.
Publicado em Uncategorized
Crise.
“O ideograma chinês para ‘crise’ também significa ‘oportunidade’. Em hebraico, a palavra para crise é mashber, que também significa ‘assento ou leito sobre o qual a mulher dá a luz’. Em hebraico, crises são mais do que oportunidades e representam “as dores do parto”. Alguma coisa nova está nascendo.” (Lord Jonathan Sacks, rabino-chefe da Grã-Bretanha, no livro Cartas para a próxima geração).
Publicado em Uncategorized
Clarice,
“Ela se debateria ao longo de toda a vida entre a necessidade de pertencer e a tenaz insistência em manter-se à parte”
Uma ótima obra que li recentemente é “Clarice,”, de Benjamin Moser, jornalista, tradutor e escritor. Sou apaixonada por Lispector e, ao iniciar a leitura do livro, tive medo de me decepcionar com a biografia feita por um americano. Mas a reação que tive ao ler as quase 800 páginas foi de surpresa. Sempre.
A primeira questão que indaguei foi “por que uma vírgula após o nome de Clarice?”. Poucas páginas depois de iniciar o livro, entendi: um ponto final é muito pequeno para ser posto ao lado de uma mulher que cria muito mais perguntas do que respostas.
Moser resgata a história de Clarice. Não poupa páginas para relembrar a sofrida imigração da sua família, a fuga da terra da natal, a doença que Mania, mãe de Lispector, contraiu no leste europeu e a tristeza de Pedro, o pai, por todas as responsabilidades de pai de família no novo mundo.
Mas Moser vai além. Observa, nas entrelinhas, as frustrações de Clarice – seja por ter nascido para salvar a mãe, por suas crises de depressão, pelos problemas com os filhos ou pelo divórcio. Porque Clarice, como se percebe na sua biografia, foi muito muito mais triste do que feliz.
O biógrafo não esquece das obras de Lispector. Analisa com dedicação, sempre as relacionando com a vida da escritora. Prefiro os contos de Clarice aos romances, mas devo admitir que Moser se empenha tanto na tarefa de explicá-los, que dá vontade de reler.
Arrisco-me a dizer que, por ser estrangeiro, o autor realiza um estudo mais intenso do que qualquer brasileiro faria. Aos poucos, linha por linha, Moser constrói a história do Brasil junto à história de Clarice. E na tentativa de descobrir um pouco mais sobre esta tão grande escritora, acabamos diante, também, da nossa história como nação.
Publicado em Uncategorized
Meia Noite em Paris
É um consenso que os filmes de Woody Allen são do estilo “ame” ou “odeie”. Neste último, Meia noite em Paris, fui uma das poucas pessoas que não se deslumbrou com a história. E olha que amo Paris.
Mas estou aqui para falar das personalidades que, na volta ao passado, apareceram na telona.

Scott Fitzgerald (1896-1940) – Considerado um dos maiores escritores americanos do século XX, Fitzgerald escreveu histórias inspiradas na sua época. Além dos Estados Unidos, o escritor morou na França. Alcoolista, Scott retornou aos Estados Unidos nos seus últimos anos de vida, onde trabalhou como roteirista cinematográfico. Seu último romance, O último magnata, foi publicado postumamente. Outras obras: Este lado do paraíso, Os belos e malditos, O grande Gatsby e Suave é a noite.
Zelda Sayre Fitzgerald (1900-1948) – A romancista norte-americana foi casada com Scott Fitzgerald. Mudou-se a Paris, onde conviveu – junto com o marido – com Ernest Hemingway (outro personagem de Allen). Zelda escreveu artigos para revistas, além de curtas histórias. Pouco antes de completar 30 anos, obcecou-se com a carreira de bailarina. Ao mesmo tempo que o alcoolismo do marido se agravava, Zelda se tornou instável. Em 1930, foi internada em um sanatório, onde diagnosticaram esquizofrenia. O hospital onde estava internada incendiou, em 1948, tornando Zelda uma vítima fatal.
Gertrud Stein (1874-1946) – Nascida nos Estados Unidos, Stein foi escritora, poeta e feminista. Em seu círculo de amigos estavam Pablo Picasso, Matisse, Hemingway e James Joyce. O endereço de Gertrud foi ponto de encontro entre os artistas. Stein escreveu Autobiografia de Alice B. Toklas, livro importante para a vanguarda das três primeiras décadas do século XX.
Cole Albert Porter (1891-1964) – Foi músico e compositor norte-americano. Quando os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial, em 1917, o músico viajou por toda a Europa, onde conheceu alguns dos mais conhecidos intelectuais da época. Porter escreveu alguns musicais à Broadway.
Ernest Miller Hemingway (1899-1961) – O norte-americano Hemingway foi escritor. Trabalhou como correspondente de guerra em Madrid durante a Guerra Civil Espanhola, tema que lhe inspirou a obra Por quem os sinos dobram. Após a guerra, estabeleceu-se em Cuba. Ernest fez parte da “geração perdida”, grupo composto por escritores expatriados em Paris. Publicou também O velho e o mar e O sol também se levanta, entre outros. O escritor recebeu um prêmio Pulitzer em 1953 e o Nobel da Literatura no ano seguinte.
Pablo Picasso (1881-1973) – O espanhol foi pintor, escultor e desenhista. Picasso também se aventurou na poesia. Reconhecido como um mestre da arte do século XX, Picasso é considerado um dos artistas mais famosos de todo o mundo. Também é conhecido, junto com Georges Braque, como co-fundador do Cubismo. Uma das mais famosas obras de Picasso é o mural Guernica – exposto no Museu Rainha Sofia, em Madrid. A arte retrata a cidade basca Guernica após o bombardeio pelos aviões de Adolf Hitler.
Salvador Dali (1904-1989) – Dali foi um conhecido pintor surrealista catalão. Através da sua obra, participou do curta de animação Destino, de Walt Disney, lançado postumamente em 2003. Junto com Alfred Hitchcock, Dali participou de Spellbound.
Josephine Baker (1906-1975) – Nome artístico da norte-americana naturalizada francesa Freda Josephine McDonald, cantora e dançarina. Baker é considerada uma das primeiras grandes estrelas negras das artes cênicas. Sua carreira iniciou ainda criança, quando trabalhava dançando como artista de rua. Em Nova York atuou em alguns espetáculos da Broadway. Em 1925, Josephine estreou em Paris, onde fez rápido sucesso. Atuou como espiã durante a Segunda Guerra Mundial e, ao fim desta, foi condecorada com a Cruz de Guerra das Forças Armadas Franceses e a Medalha da Resistência. Também recebeu de Charles de Gaulle o grau de Cavaleiro da Legião de Honra. Baker também foi ativista na luta contra o racismo.
Paul Gauguin (1848-1903) – Foi pintor francês de pós-impressionismo. Apenas aos 35, devido à quebra da Bolsa de Paris, Gauguin decidiu se dedicar totalmente à pintura. O pintor é considerado o fundador do Les Nabis, grupo que representava o pensar na pintura como conceito filosófico.
Man Ray (1890-1976) – Emanuel Rudzitsky foi pintor, fotógrafo e anarquista. O norte-americano é considerado um dos mais importantes nomes da década de 1920, autor de inovações artísticas nas fotografias. Ray aproximou do movimento surrealista na pintura e, na fotografia, desenvolveu a raiografia – técnica que cria imagens abstratas. Foi também cineasta, função na qual produziu filmes surrealistas.
Publicado em Uncategorized
Primo Levi
Faz muito tempo que conheci Primo Levi, escritor que me assombrou numa intensidade nunca antes sentida. Encontrei seu livro É isto um homem? aqui em casa, repousando numa prateleira. E o devorei, pela segunda vez, vorazmente, como quem descobre o mundo a cada virar das páginas.
O livro é um retrato assustador dos Campos de Concentração nazistas, pelos quais Levi passou. E depois de lê-lo, não me restou nada além de querer descobrir mais sobre seu autor.
Levi nasceu em 1919, em Turim, na Itália, em uma família judia liberal. Em 1941 se graduou em Química na Universidade de Turim. As leis anti-judaicas impediram que encontrasse um trabalho na área de sua formação após a conclusão universitária.
Em 1943, juntou-se ao movimento de resistência italiana partisans. Chamado também de Movimento Justiça e Liberdade, o grupo era bastante comum nas regiões parcialmente ocupadas pelos alemães. Seus participantes não possuíam treinamento militar, razão pela qual Levi e seus companheiros foram feitos prisioneiros pela milícia fascista. Quando a sua condição judaica foi revelada, os milicianos o encaminharam ao campo de prisioneiros em Fossoli.
Em 1944, Levi e outros prisioneiros deste campo foram enviados a Auschwitz. Lá, permaneceu por 11 meses – até ser libertado pelo Exército Vermelho. Dos 650 homens que chegaram ao campo com Primo Levi, somente 20 sobreviveram.
Não há uma explicação única para a sobrevivência de Levi, mas várias: ele falava um pouco de alemão, que aprendera nas publicações universitárias, percebeu que precisava passar despercebido e, devido a sua formação profissional, trabalhou como assistente no laboratório de Buna, onde se mantinha aquecido.
Libertado em janeiro de 1945, Levi permaneceu por algum tempo em um antigo campo de concentração soviético, recuperando-se nas limitações impostas pela guerra. Depois, junto com outros italianos, retornou lentamente a sua casa, passando antes pela Polônia, Ucrânia, Romênia, Hungria, Áustria e Alemanha.
Quando voltou à Itália, Levi se empregou como químico industrial e começou a escrever sobre as suas experiências no Campo de Concentração e na volta para casa: que viriam a ser, mais tarde, os livros É isto um homem? e A trégua.
Em 1977, Levi se aposentou do seu trabalho como químico e passou a escrever integralmente. Dez anos depois, Levi morreu após cair no vão interno da escada de seu edifício, com três andares. Ainda hoje não é sabido se a causa da morte foi acidental ou motivada por um suicídio. Elie Wiesel na época afirmou “Primo Levi morreu em Auschwitz 40 anos depois”.
* Para quem deseja saber mais sobre Primo Levi, recomendo a leitura deste artigo.
Publicado em Uncategorized
A grande Shirin Ebadi
Quando entrou no palco, Shirin Ebadi pareceu uma mulher pequena. Porém, ao começar a falar, a primeira iraniana a se formar juíza se transformou em um verdadeiro gigante. A premiada Nobel da Paz em 2003, ativista dos direitos humanos, esteve em Porto Alegre nesta segunda-feira, 13 de junho, onde palestrou no Fronteiras do Pensamento.
Ebadi tirou o relógio do pulso e iniciou sua fala sobre a história do Irã. Situou o público diante da Revolução Islâmica, que em 1979 trocou um governo ditatorial por outro. Se não for substituída por uma democracia, “a saída de um ditador de um país não é suficiente”, disse.
A conferencista lembrou das desigualdades existentes em solo iraniano: “o valor da vida de uma mulher é metade do que vale a vida de um homem”. As indenizações que o governo paga aos homens em caso de acidentes é o dobro do valor que as mulheres recebem.
No Tribunal de Justiça, o testemunho de duas mulheres equivale à palavra de um homem. Ebadi explicou que os homens se casam com até quatro mulheres e têm direito ao divórcio sem justificativas. O mesmo não vale às esposas.
A religião oficial do Irã é o islã xiita, embora o cristianismo, judaísmo e zoroastrianismo também sejam aceitos. As pessoas que não seguem alguma fé reconhecida não possuem direitos. A crença bahai, que tem cerca de 300 mil seguidores no Irã, é um exemplo desta marginalização.
Shirin destacou que penas como apedrejamento, crucificação, chibatada e decepamento são comuns no Irã. As penalidades variam de acordo com a religião. Enquanto um indivíduo que segue o islã pode ser condenado a 100 chibatadas, pela mesma infração alguém de outra crença será executado. “A interpretação errada do islã leva a punições descabidas”, comenta Ebadi.
Nas prisões iranianas está o maior índice de comunicadores presos. No último domingo, 12 de junho, Reza Hoda Saber, jornalista, morreu após uma longa greve de fome. Ebadi lembrou que atualmente há cinco mulheres atrás das grades aguardando a execução da sentença que as matará apedrejadas. De acordo com o próprio governo iraniano, em 2010 foram 300 as pessoas executadas.
A premiada ativista afirmou que qualquer violação dos direitos humanos que aconteça em alguma parte do mundo envolve a população mundial: “os direitos humanos são assuntos internacionais”. Com gestos rígidos, a pequena mulher disse que “a vontade do povo para a democracia no Irã é maior do que os problemas”.
A juíza finalizou sua fala afirmando que a população se mantém protestando de maneira pacífica: “somente com a pena e com a fala [o povo] combate o governo”. E completou: “finalmente a democracia virá ao Irã. Esse dia não está longe”.
Longamente aplaudida, Shirin Ebadi respondeu a questionamentos do público, rememorou o abraço de Lula a Ahmadinejad, confessou que queria ser recebida por Dilma Rousseff e que vê mudanças positivas no posicionamento do governo da nova presidente.
Na mesma noite em que a conheceu, Porto Alegre se despediu de Ebadi. Agora, com a consciência do seu real tamanho.
Publicado em Uncategorized
Em Um Mundo Melhor

Em uma conversa com o público ao final da apresentação de um monólogo, no início de 2010, Antônio Fagundes disse que, para ele, bastava que as pessoas saíssem do teatro até o estacionamento em silêncio, absorvendo a encenação. Estes cinco minutos de pensamento intenso já seria o suficiente.
Voltei a lembrar desta declaração recentemente, quando assisti o dinamarquês Em Um Mundo Melhor, de Susanne Bier, eleito o melhor filme estrangeiro no Oscar 2011 e no Globo de Ouro. Saí da sala de cinema incomodada, tentando me entender, ver quem sou eu dentro daquela encenação que muito mais tem de realidade do que de ficção.
Na trama, Anton se divide entre o Quênia e a Dinamarca. No país africano, é médico. Lida com a miséria e com a violência, caracterizada pelos terríveis ataques do “chefão” às mulheres, esfaqueadas e violentadas. Na Dinamarca é marido e pai. Protagonista de um casamento que ruma ao fim e pai de dois meninos.
Seu filho maior, Elias, sofre freqüentes ataques na escola. “Cara de rato”. O menino responde com silêncio às afrontas, até que conhece Christian, novo aluno, que há pouco perdeu a mãe e, com o pai, mudou-se da Inglaterra para a Dinamarca. Todas as ações que acontecem daqui para frente são feitas de forma desmedida. E todos sabemos que, criança, quando perde a medida, é tão perigosa quanto adulto.
O que de raiva tem acumulada na vingança de Elias e de Christian, o quanto a escola se ausenta, o quanto os pais merecem e precisam participar da vida escolar dos seus filhos, o quanto um carinho pode fazer a diferença, o quanto o não dito e o não respondido cresce dentro de nós, tudo isso cabe ao espectador constatar. Apenas se lembre que Em Um Mundo Melhor não é um filme de rápida digestão.
Publicado em Uncategorized
Torta na cara
Era para ser um dia normal. Não que dias normais sejam bons. Dias normais são normais e só, oras. Acordei no mesmo ritmo frenético de sempre e fiz toda aquela cerimônia antes de sair de casa: põe roupa, toma café, escova os dentes, coloca um rímel aqui, outro ali. E fui.
Há mais de quatro anos, desde que iniciei a faculdade, o ritmo é este. Porque acordar cinco minutos antes é sonhar cinco minutos menos.
Eis que, ao pisar na rua, sinto uma tristeza nunca antes mencionada. Um imã que teima em me levar de volta para casa. Uma dor no peito sobe e desce. Desce e sobe. Uma voz dentro de mim começa a gritar, no mais profundo silêncio, narrando todas as atividades do dia. E começo a viver ali, antecipado, cada leão que teimo em matar. Juntos, são um exército invencível.
Mas continuo andando. Porque pior do que enfrentá-los, seria não enfrentá-los.
Com o corpo pesado, chego a todos os meus destinos. Aula, trabalho, academia. E em todos lugares, entre um pensamento concreto e outro, me pergunto sobre a vida. Quando criança, achava que morrer era ficar vivo dentro de uma caixa. Hoje sei que é como não nascer.
Mas ainda têm coisas que simplesmente não entendo. E não entender é o que me faz continuar.
No fim do dia, o último destino é o supermercado. Preciso de um chocolate – que não resolveria nada e resolveria tudo ao mesmo tempo. Só consigo estacionar longe. Caminho, caminho, caminho. Eis que, quando estou quase entrando, ouço uma voz em baixo tom: “tia, me compra uma torta?”.
Uma torta? Essas crianças são bem criativas mesmo, penso. Esperava que me pedissem moedas, pão, qualquer coisa. Até um bolo. Mas a palavra torta me pareceu sofisticada demais. “Uma torta? Mas para quê?”, pergunto. “É pro meu irmão. Ele está fazendo aniversário, três anos, e nunca teve uma festa. Eu queria cantar parabéns”.
Entro no supermercado, escolho um chocolate qualquer para mim e compro o que ela me pediu. Quando saio, a menina me espera ansiosa. “Comprou?”. Alcanço-lhe a sacola. O sorriso que ela dá, ao longo dos meus 22 aniversários bem comemorados, eu nunca consegui alcançar.
Publicado em Uncategorized
Cala a boca, coração.
Levanto devagar. Pés de bailarina. Você dorme. Vou ao banheiro. Escovo os dentes. Volto. Você dorme. Coloco a roupa. Silêncio. Olho para baixo da cama. Junto as meias. Silêncio. Dobro as camisas, espalhadas pelo chão. Procuro meu sapato. Não encontro. Silêncio. Vou à cozinha. Pego um copo d’água. Volto. Você dorme. Abro a bolsa. Silêncio. Guardo as coisas. Não cabem. Faço-as caber. Você dorme. Olho para você. Falo alto, saudade. Silêncio. Vou ao banheiro. Pó. Blush. Volto. Silêncio. Pego minha bolsa. Ponho-a sobre o ombro. Espalho perfume por tuas roupas. Você dorme. Me aproximo. Beijo sua testa. Você se mexe. Vira para o lado. Derrubo uma lágrima. Ela faz tempestade. Silêncio. Pés de bailarina. Vou à sala. Pego papel. Caneta. Faço poesia. Deixo sobre a mesa. Abro a porta. Olho para trás. Silêncio. Respiro fundo. Sentirei saudades. Silêncio. Chamo o elevador. Espero. Entro. Desço. Abro um portão. Abro o outro. Saio. Atravesso a rua. Ando uma quadra. Ando outra. Olho para o chão. Descalça. Sigo meus passos. Tortos. Não sigo nada. Você corre. Grita por mim. Continuo caminhando. Você corre. Grita de novo. Segura meu braço. Silêncio. Pega minha bolsa. Puxa minha mão. Volto à sua casa. Você deita na cama. Eu deito na cama. Barulho. Barulho. Barulho.
Publicado em Uncategorized
Se eu comprar um circo, o anão cresce
Um dos grandes ensinamentos que aprendi com Caco Antibes é a velha e debochada frase “se eu comprar um circo, o anão cresce”. Em situações de azar extremo, entre gargalhadas repito os dizeres do mestre.
Já me acostumei a enfrentar azares a cada viagem que faço. Enquanto planejo o roteiro, ainda antes de embarcar, sempre sei que terei contratempos, e a maioria deles em aeroportos.
A primeira vez coincidiu com a minha primeira viagem sozinha, um intercâmbio para o Canadá, aos 16 anos. Enquanto organizava o roteiro, pensava em todos os imprevistos que poderiam acontecer. E se eu me perder? Se pegar o metrô errado? Se não conseguir falar nada em inglês? Se não fizer amigos? Nada disso aconteceu! Me localizei em Montreal tão bem quanto na minha cidade, dominei os metrôs, não falei um inglês perfeito – mas totalmente compreensível –, e fiz boas amizades.
Mas como nem tudo é perfeito, logo na minha chegada em Montreal tive que lidar com um imprevisto. Depois de fazer escala em São Paulo e em Toronto, cheguei ao destino final e, cansada, esperei minha mala no carrossel das bagagens. Parecido como nos filmes, a cada minuto ia diminuindo consideravelmente o número de malas que ali giravam. As pessoas, claro, iam saindo dali, até que no final só eu e um outro rapaz continuamos esperando, até a esteira finalmente ser desligada.
Depois de toda a formalidade de descrever a mala e da promessa de que me seria entregue no dia seguinte, rumei para a casa da família que me hospedaria. Não vou negar que durante todo o caminho, enquanto enxergava as ruas vazias e brancas da neve, eu só pensava que queria voltar para minha casa. Na mesma noite a campainha tocou e, pela escada subia uma mala, carregada por uma moça. Primeiro, fiquei feliz. Mas a segunda reação foi reconhecer que aquela não era a minha bagagem e que, na verdade, a moça era outra intercambista, que pararia na mesma família que eu.
No fim, tudo terminou bem. A mala foi devolvida no dia seguinte, como prometido e, tirando o fato de que na volta para o Brasil minha bagagem de novo foi extraviada, os danos não foram maiores. Acha que acabou por aí?
Dois anos depois viajei para Israel. Na volta, durante a escala em Milão, resolvi sair com três amigos para conhecer a cidade. No aeroporto compramos um ticket para o ônibus que nos levaria até a estação de metrô e já aproveitamos para comprar a passagem de volta. Passeamos pela cidade, visitamos a Catedral Duomo, a galeria Vittorio Emanuele, o Castello Sforzesco, e claro, o estádio San Siro.
Na volta ao aeroporto, quando apresentamos o ticket do ônibus para o motorista, ele consentiu com a cabeça e rasgou os papéis. No final de uma longa viagem, chegamos ao aeroporto… errado! Nós quatro entramos em pânico, cada um de uma forma diferente.
Faltando cerca de duas horas para o nosso vôo sair, estávamos a mais de uma hora do aeroporto certo, o Malpensa. Eu reagi chorando. Os meninos se dividiram entre a apatia e raiva. Com um rombo de muitos Euros (não consigo lembrar quantos, acho que minha mente deletou o valor por pura proteção), algumas discussões e no fim, um grito aliviado, chegamos ao aeroporto certo ainda em tempo de embarcar. Confesso, nunca fiquei tão feliz de voltar para casa.
O terceiro capítulo da história aconteceu no verão passado, quando de novo eu voltava de Israel. Eu já estranhava a falta de imprevistos durante a viagem. No aeroporto de Tel Aviv, enquanto aguardávamos o check-in pela Ibéria, da Espanha, fomos chamados por um funcionário, que nos levou até o balcão da Alitália.
Ali, formamos filas e buscamos uma explicação – que não veio. Depois, os funcionários da Alitália pediram para que voltássemos à fila da Ibéria, para onde fomos novamente. Fomos informados que uma tempestade de neve caia na Espanha e que por isso teríamos que mudar a nossa escala e a companhia aérea. De novo fomos ao balcão da Alitália, irritados, e finalmente recebemos os tickets de embarque e despachamos a bagagem.
Acostumada a viajar desde pequena, adoro andar de avião, mas antes de embarcar costumo ficar tensa. Como de costume, decidi que não embarcaria no vôo sem avisar meus pais que a escala havia sido modificada. Com pouco tempo no relógio até o embarque, sai às pressas pelo aeroporto em busca de um telefone.
Incrível como todos os telefones públicos desapareceram naquele momento. Depois de muito caminhar, quase na saída do aeroporto encontrei um orelhão e telefonei para minha família. Com dificuldade de encontrar meus pais, avisei meu avô da mudança de destino e embarquei com tranqüilidade.
Esta última história aconteceu há uns nove meses. Meu vôo para Porto Alegre sairia às 22h05 de Congonhas. Quando cheguei ao aeroporto, o atendimento no balcão da TAM estava temporariamente fechado, devido ao mau tempo. Ali esperei que reabrisse, até que oficialmente meu vôo foi cancelado e o aeroporto, fechado.
Consegui remarcar a passagem para o outro dia, às 6h, em Guarulhos. Questionei os funcionários da companhia sobre onde eu poderia dormir, e a resposta que recebi foi que a praça de alimentação do aeroporto se manteria aberta de madrugada. Conversei com outros funcionários, e todos negaram a possibilidade de eu dormir a noite em um hotel – contrariando os meus direitos.
Com muito custo, consegui um vale alimentação de R$ 10, que deveria servir para minha janta e café da manhã em Guarulhos. Exausta, cochilei no chão do aeroporto, sempre atenta a minha mala, que ainda não tinha sido despachada.
Na volta, por diversas vezes tentei contato com a TAM, que depois de muita insistência da minha parte retornou, informando que não era responsável por me fornecer hospedagem, já que as causas eram meteorológicas. Tudo acabou sendo resolvido judicialmente.
Hoje conto rindo os imprevistos pelos quais passei. Na hora, lidei com irritação, medo, raiva. Mas confesso, baixinho, que se todos os problemas das minhas viagens forem sempre esses, o anão do meu circo continuará pequeno.
Publicado em Uncategorized
Uma visita a Dachau


Um dos dias mais emocionantes que vivi na Alemanha foi quando visitei Dachau, um Campo de Concentração cujo número de prisioneiros de guerra que por lá passaram ultrapassa os 200 mil.
Cheguei à Alemanha depois de passar um mês em Israel e por pura acomodação não planejei o que faria durante a semana que ficaria em Munique. Foi uma grande surpresa quando soube que há menos de uma hora de Munique estava Dachau, situado na cidade de mesmo nome.
Cheguei à Alemanha depois de passar um mês em Israel e por pura acomodação não planejei o que faria durante a semana que ficaria em Munique. Foi uma grande surpresa quando soube que há menos de uma hora de Munique estava Dachau, situado na cidade de mesmo nome.
Mais por falta de coragem do que de vontade, demorei até decidir que visitaria o Campo. Achava que não estava pronta para viver uma emoção intensa e forte, mas depois, em minhas divagações, descobri que poucas pessoas estão realmente preparadas para visitar os horrores que sobraram da Guerra.
Em Marienplatz, praça principal de Munique, eu e meu irmão encontramos o guia da excursão e o grupo que faria a visita conosco. Dali fomos de metrô até a estação central, onde pegamos um trem até a cidade de Dachau, para finalmente, de ônibus, chegarmos ao Campo de Concentração.
Minha reação inicial foi tranqüila. O que encontramos foi um lugar vazio, com pouquíssimas pessoas, todas interessadas em se aprofundar na história do local. O silêncio e a calmaria contrastavam com as imagens tristes documentadas no museu. Além de fotos, o acervo incluía imagens das propagandas nazistas, explicações históricas, objetos como as estrelas de Davi e mapas que mostravam o número de pessoas que vieram de cada país.
Depois, quando saímos para uma parte aberta do Campo, fiquei paralisada. Não conseguia mais prestar atenção nas palavras do guia, um californiano um pouco mais velho do que eu. O frio só me fazia pensar que se eu, com casacos, luva e gorro, já sofria e quase me congelava, o que sentiam os prisioneiros que, no inverno, trajavam nada além dos famosos uniformes listrados?
No final, depois de visitarmos os dormitórios, banheiros, crematórios e até uma câmara de gás que, segundo os registros, nunca chegou a ser usada, avistamos um monumento emocionante. Uma rampa, em cuja ponta havia uma Menorá, que representava a subida da Shoá, a Guerra, rumo a Israel.
Descobri, já no final da visita, que eu e meu irmão éramos os únicos judeus do grupo. Entre os outros integrantes, todos jovens ou de meia idade, tinha um cirurgião plástico turco, um professor de geografia e alguns mochileiros, como nós.
O guia, para finalizar o programa, relembrou que somos os responsáveis por recontar o que enxergamos ali e que nunca devemos nos esquecer que em Dachau não passaram somente judeus, mas homossexuais, perseguidos políticos, testemunhas de jeová e deficientes físicos.
Na volta, o grupo todo fazia silêncio. E eu, também quieta, pensava apenas que o lugar, sozinho, é inofensivo. Um Campo de Concentração vazio é só um lugar vazio. O que mais me assustou foi ter a consciência de que tudo ali, tudo, foi feito pelos homens.
Na volta, o grupo todo fazia silêncio. E eu, também quieta, pensava apenas que o lugar, sozinho, é inofensivo. Um Campo de Concentração vazio é só um lugar vazio. O que mais me assustou foi ter a consciência de que tudo ali, tudo, foi feito pelos homens.
Publicado em Uncategorized
Um corpo. Um copo.
Para Henrique Stivelberg
Um corpo. Um copo. Um rosto refletido por entre as gotas de vodka. Uma garrafa vazia. Maria Inês caminha sobre o tapete, de pés descalços. Entre tentativas de se equilibrar, suspira. E pensa no vestido de noiva, na grinalda intacta sobre a cama. No relevo que suas mãos sentiam ao tocar os bordados, feitos por sua mãe. Nas flores rubras do seu bouquet, há pouco colhidas da terra.
Maria Inês vê Bartolomeu, em sépia. Com os olhos bem abertos, relembra do encontro na beira do rio. Do cheiro de grama molhada, do barulho que ouvia a cada passo de seu caminhar. Bartolomeu era 13 anos mais velho, o que não a incomodava. Gostava de suas sardas, do loiro quase vermelho de seu cabelo. E da pinta que carregava ao lado dos lábios e que se dividia em duas quando sorria.
Na beira do rio, os dois fizeram um piquenique. Ela levou frutas e pães, feitos com suas próprias mãos. Ele, a vodka. E juntos passaram a tarde rindo. Um riso manso, de quem tem a vida pela frente. A noite se fez cedo e, na despedida, Bartolomeu juntou uma flor da grama e a pediu em casamento.
A cidade recebeu a notícia com festa. A filha do Agelino, dono do mercado, se casaria com um estancieiro. Maria Inês poderia abdicar do trabalho com o pai para viver na tranqüilidade das fazendas de Bartolomeu, onde criaria seus filhos sob a luz do sol, rodeados de árvores e animais.
Sentada no sofá, treinando o equilíbrio, Maria Inês pensa no que a vida deve ter feito de Bartolomeu. Ela nunca mais o procurou, desde que saiu fugida da casa dos pais, na véspera do casório. E por muito tempo, Maria Inês foi silêncio. Silêncio pelo que deixou para trás. Silêncio pelo que teve pela frente. Não trocou de nome, mas não se incomodava de ser só Maria. Ou só Inês.
Trabalhou pesado. Casou. Descasou. Casou de novo. Enfrentou o suicídio do filho mais novo, a viuvez precoce. E nunca molhou os pés no mar, como Bartolomeu a prometia. Até hoje, quando entra em um cemitério, Maria Inês ora também por Bartolomeu.
Pela sua morte, se já aconteceu. Ou pelo resto de vida que tem. Pela parte do homem que morreu quando ela foi embora. E por nunca ter conseguido matá-lo dentro de si. Mas, principalmente, as rezas de Maria Inês são para si. Por tê-la se matado quando subiu no cavalo e se foi da cidadezinha. Na Maria Inês de hoje há mais de Bartolomeu do que dela mesma.
Demorou para que Maria Inês se permitisse sentir o mesmo gosto de bebida. A mesma vodka que a fez dançar com Bartolomeu na beira do rio. O mesmo abraço silencioso que recebia de Bartolomeu quando, escondidos, iam ao quintal escuro de casa. Gosto de romance. Gosto de um amor que jamais sentiu novamente.
Por quarenta anos Maria Inês guardou suas perguntas atrás de uma mulher quieta, quase muda. Submissa. Foi mãe, avó, mas nunca deixou de ser uma personagem de si mesma. Já não era a mesma mulher que partiu com as tranças ao vento.
O que teria sido de sua vida se não tivesse ido embora? Se continuasse na cidade e respondesse sim na Igreja? Será que seu pai teria conhecido os netos? Será que ela teria poupado lágrimas, sem precisar enterrar Vicente ainda tão novo?
Maria Inês troca de posição, esfrega os olhos e sorri. Lembra que na véspera do casamento, de manhã, se encontrou com Bartolomeu. Colheram frutos da árvore e devolveram as sementes à terra. Estavam ansiosos, os dois. Antes de cada um voltar ao seu lar, se deram um beijo longo. Bartolomeu sussurrou palavras em seu ouvido e partiu, sem olhar para trás.
Quando chegou em casa, recolheu as roupas do armário, os enfeites, os bilhetes apaixonados que expunha nas paredes. Enquanto guardava seus pertences dentro da maior saca que tinha, ouvia ainda as palavras de Bartolomeu. E sentia seu cheiro. Cheiro de homem. Quando fugia, no cavalo de seu pai, escondia um sorriso tímido, entre as lágrimas que sangravam o rosto.
Maria Inês ruma, entre tropeços, ao seu quarto. Veste peças brancas, sobrepostas por colares. Vários. Liga o som e, fora do ritmo, abre os braços e começa a girar. Gira. Gira. Gira. Com um sorriso saudoso nos lábios, derrama as mesmas lágrimas de sua partida, que a vida nunca mais a tinha permitido chorar.
Publicado em Uncategorized
Amor estrangeiro
Desci do avião e você me esperava. Nos demos um abraço longo, um beijo e sussurramos palavras que nem lembro. Olhávamos bobos um para o outro e riamos. Logo eu, que sempre condenei risadas apaixonadas. Saímos de mãos dadas do aeroporto e caminhamos juntos pela tua cidade. Não era a tua cidade. Naquele dia você foi um turista ali. Perguntava informações, fazia sotaque quando não sabia de alguma coisa, olhava o mapa. Seguia mais o coração do que aquela rotina encabulada, quase cruel de acordar e viver o marasmo de ser si mesmo. Naquele dia nos encontramos e nos reservamos um para outro, por inteiro. Somente um para o outro. E sem saber, nos deliciamos com o melhor de nós, com a melhor companhia que teríamos durante anos. De noite fomos ao teatro e depois saímos para jantar. Você me ofereceu vinho, eu preferi champagne. No outro dia caminhamos no parque. Corremos, brincamos na grama, nos sujamos na areia da pracinha das crianças. Você planejava o nome dos filhos. Queria dois meninos. E eu com meu desejo louco de ter duas meninas gêmeas. E no mesmo horário em que me recebeu na véspera, você me levou ao aeroporto. Demos um beijo longo e não falamos nada. Embarquei sem olhar para trás, para não deixar um pedaço de mim. Quando voltar, quero estar inteira.
Publicado em Uncategorized
O último abraço não tem data.
Preciso de silêncio. Acabo de devolver à terra uma mulher forte. Que ao aborto, respondeu com a vida. E que superou as dificuldades de formar-se médica em um tempo em que só os homens chegavam à universidade. Aos percalços, ela respondeu sendo esposa, mãe e avó. E sendo, acima de tudo, humana.
Não consigo ter raiva de sua morte. Deitada na cama do hospital, minha avó permanecia quieta diante das conversas das visitas e do entra-e-sai das enfermeiras. Quieta, não triste. Eu tinha a impressão que, no silêncio, ela vivia algo que não podíamos alcançar. Não chegou a reclamar de dor, nem de medo. Quando alguém falava mais alto, ela se virava, calma, para tentar entender o que acontecia. Parecia que por alguns segundos retornava ao nosso mundo. Acho que não ouvi a voz dela nesse dia.
Aconteceu que beirando as seis horas, entre o lanche e a janta, ela morreu. Levantou a cabeça, mirou bem cada um dos que estavam no quarto e deitou. Sorriu com um lado da boca e fechou os olhos, lentamente. Foi uma morte quase bonita. Enquanto nos olhávamos, ela permanecia rindo. Rindo para sempre. Depois, um a um se aproximou, sussurrou palavras em seu ouvido e nos abraçamos. Não foi preciso frases de apoio, estávamos todos comovidamente realistas.
Voltei para a casa com meu avô em um silêncio perpétuo no carro. Embora nos dois saibamos que este foi um dos mais profundos diálogos nossos. Vinham versos de Lispector na minha cabeça e eu enxergava meus verões na praia, nossas brincadeiras, as conversas que ao longo da vida trocamos. E, já mais velha, eu a via em cima de uma cama, limitada por esquecimentos, dores, saudades.
Hoje, no enterro, me despedi de olhos fechados. E chorei as lágrimas necessárias. Porque sigo achando que minha avó não morreu. E por isso meu choro foi tão sereno. Na volta para casa, vi minha avó no rosto de todas as senhoras que desfilavam pela rua. Não foi ruim. Porque ainda acho que vou encontrá-la em alguma esquina qualquer. Ou nas minhas esquinas internas, a cada dificuldade ou desafio que eu tiver pela frente.
Tantas coisa ficou pela metade. A bandeja com frutas. Um livro aberto. O carro mal estacionado na garagem. A lista de compras. Por que uma pessoa na véspera de partir enumera produtos de limpeza para comprar? Minha avó esteve viva até o seu último minuto, dentro do seu universo. Não me culpo pela ausência de um abraço final, ainda em vida, ou de uma confidência de amor. E não sei de quanto tempo precisarei para dar tchau para ela. Por enquanto, não consigo pensar em nenhuma outra despedida além de “até mais”.
Publicado em Uncategorized
autoajuda.com.br
Nos meu sonho juvenil – aquele que se sonha acordado – sempre desejei ver uma estrela cadente e o um coelho na lua. “Só quem está apaixonado vê o coelho desenhado na lua”, diziam. E eu pensava internamente que todas as minhas noites sem dormir pensando nele e que todos os momentos que juntos vivemos não foram atos de amor. As frases curtas, em letras tortas, emolduradas por corações vermelhos, sequer foram declarações de amizade. Os dizeres românticos sussurrados no meu ouvido não chegaram a ser demonstrações de alguém apaixonado. Foram simplesmente palavras após palavras, que não saiam de um coração e miravam a outro. Cogitei que meus olhos até captavam o coelho, mas não o decifravam, como uma mensagem que existe, mas não pode ser lida. Durante anos mirei o céu e entre as estrelas e a lua, encontrava apenas a mim. Enxergava minha solidão diante de todo universo e a minha insignificância diante de tantos pontos coloridos dispersos na escuridão. Entre as estrelas e a lua, eu divagava sobre a minha existência e pensava sobre os tantos momentos propícios para enxergar a imagem no nosso satélite. Aquele desenho indefinido na lua sempre me perturbou. Sempre me causou um incômodo pensar que vê-lo dependia puramente de uma paixão e que eu, tão vivida, nunca tinha tido uma. Só quando cresci é que compreendi que para ver o coelho na lua é preciso, de fato, estar apaixonado. Mas não é sobre o amor juvenil que se fala, tampouco sobre a adoração a um outro ser, sobre o desejo de sobrepor carne a carne, beijo a beijo. A paixão é puramente interna e para que possamos ver algo além de um desenho abstrato, é preciso que amemos a nós mesmos. E nesse momento, todas as estrelas brilharão dentro de nós. Para nós, o mundo será cadente por inteiro.
Publicado em Uncategorized
Carta de desabafo.
Leia com calma. Provavelmente esta é a última fonte de notícias que terás a meu respeito. Cuidado. Meus devaneios têm me enlouquecido. Não desejo o teu abraço. Quero mesmo é me enrolar em teus braços, fazendo de nós dois um só. Estou cansada de ouvir tua voz. Farta de ver teus olhos. Quero mesmo é senti-los. Não agüento esta brincadeira de gato e rato. Não entendo os teus objetivos. E isto é reconhecer que não conheço uma parte de mim. Por favor, me escute. Não se esconda. Não se ausente. Vamos à vida. Esqueça. De você não quero nada. Este é o último gole.
Publicado em Uncategorized
Fogueira em pó
Morei até os meus dez anos em um apartamento de luxo. No final dos anos 90 tivemos que nos mudar, por questões que superavam o meu entendimento infantil. Até hoje tenho lembranças saudosas dos meus brinquedos espalhados pela sala, das sacadas que não tinham fim, de como o céu parecia mais perto do que o chão. Às vezes brinco que deixei minha infância lá, que quando fui embora me transformei em nada, nem em menina, nem em mulher. Que desaprendi a brincar e não me ensinaram nada em troca. Mas não acho que seja brincadeira. É que às vezes é mais fácil dizer as verdades brincando, porque seria muito dolorido dizê-las de qualquer outra forma.
No último dia da mudança, quando os móveis já tinham sido levados para o nosso novo abrigo, pedi aos meus pais para ver o apartamento vazio. E aquilo foi o que me matou. Enquanto eu me despedia de cada canto, eu me procurava ali dentro. Andava pela cozinha, pela área de serviço, pelos banheiros. Eu já não existia! Mas sentia que um dia ainda voltaria a morar ali. Que de alguma forma aquele apartamento voltaria a ser meu. Aos dez anos era muito difícil se despedir para sempre. E por isso me foi impossível imaginar que dias depois os buracos seriam preenchidos por novos móveis, por novas pessoas. Para mim, meu apartamento nunca seria o protagonista de outras vidas.
Mas agora cresci, dobrei a idade, e ainda não sei me despedir. Porque dar adeus não é algo que se aprenda com os anos. Tem coisas para as quais nunca estaremos preparados, independente dos anos de vida, da profissão, das experiências boas e ruins. E por isso tenho dúvidas se as perdas podem ser digeridas com o tempo. Porque perder é muito mais violento do que abandonar ou do que desistir. Perder é ter de si arrancado uma coisa que ainda se quer. Que ainda se precisa. Abandonar é abdicar.
Por anos sonhei em voltar naquele lugar. Imaginava, em silêncio, como eu disporia os móveis, qual seria o meu quarto. Que uso a sacada teria? Lembrava até das prateleiras em cima da churrasqueira. Pura ingenuidade. Hoje consigo perceber que se um dia eu pudesse voltar ao meu remoto lar, ao paraíso das minhas brincadeiras da infância, eu não voltaria. Simplesmente porque esta seria uma tentativa vã de me encontrar, de achar a menina que eu seria se continuasse morando lá. Menina morta. Eu escolheria ir para qualquer outro lugar, bem longe. Sinceramente, me reinventar tem parecido muito mais fascinante.
Publicado em Uncategorized
Lágrimas de vidro
A moda agora é rasgar os papéis matrimoniais em público enquanto se comemora o divórcio. Achei engraçado quando eu soube que os pais da Ângela fizeram isso. Gastaram fortunas na festa de casamento, tiveram dois filhos, viajaram com eles pelo mundo, e agora que cresceram, pronto, se separaram com direito à festa de arromba.
Isso mesmo, não estou falando da ex esposa ir a uma mesa de bar com suas três ou quatro amigas fiéis e chorar até o amanhecer, enquanto intercala goles de cerveja, vodka, tequila e tudo mais o que calhar. Ou de o antigo marido em ir em busca de algumas menininhas pela noite, sozinho.
Falo de festa. Festa de verdade. Assim foi a da tia Belinha, com risoto, champagne, música ao vivo, tulipas na decoração e muitos convidados. Se bobear, foram até mais convidados do que no próprio casamento. Ela estava brilhando, com um vestido comprado em Paris, estrategicamente maquiada, feliz. Não aquela felicidade aparente, que estamos acostumados a ver nas revistas. Feliz de verdade, mesmo.
Agora vem a fatídica pergunta: os convidados deviam levar presente para a nova divorciada? Ouvi várias opiniões. “Não, uma mulher dessas já tem tudo”. “Ela precisa de amor, isso você não pode comprar”. “Quem perde o casamento perde a vida”. Sem dramas, por favor. A minha resposta foi “claro”. Ela não vai querer usar os lençóis dividia com aquele homem a quem hoje abomina, ou a mesma louça que dividia com o grande amor da sua vida. Isso se os pratos já não tiverem sido arremessados nas paredes durante as brigas do casal.
A verdade é que divórcios não duram para sempre. Porque depois da festa, de receber o incondicional apoio dos amigos, de rasgar os pacotes de presentes e de fazer um intensivo na academia, a tia Belinha encontrou sua nova alma gêmea, namorou por um tempo e me mandou um convite afetivo para o noivado. Isso quando eu recém estava pagando a segunda parecela daquela meia de lã que a presenteei na festa de divórcio, justamente para aquecê-la no inverno.
Publicado em Uncategorized
Nado sincronizado
Que facilidade essas livrarias que são cafeterias ao mesmo tempo. Não existe coisa mais prática do que separar uns cinco ou seis livros e folheá-los com toda calma, intercalando a leitura por goles de café. Se for na livraria na frente da casa da Ritinha, com mesas coletivas, tudo fica melhor. E, se ao seu lado sentar um narigudo, é o paraíso. Pelo menos o meu.
Vamos convir, homens charmosos têm nariz grande. Não adianta, essa é a regra. O cara até pode ter um papo legal, olhos bonitos, um sorriso sedutor, mas se for só isso, sem o nariz, então nada feito.
Foi assim que conheci o Jacques. Em uma mesa empilhada de livros, eu brincava de espiar o cara que tão concentrado lia Paulo Coelho. Me diz, quem vai a uma livraria ler Paulo Coelho? Eu ria por dentro, tentando descobrir mais sobre aquela pessoa. Eis que então o homem levantou a cabeça e mirou os olhos direto em mim. Eu, sem tempo de disfarçar, dei um sorriso, o qual ele respondeu. E por dentro eu vibrava “é narigudo, é narigudo”.
Mas a verdade é que isto nos afastou no início. Conversa vai, não demorei mais de duas horas para perceber que eu vivia uma dupla conquista. A ponta do seu nariz mexia conforme o movimento da boca. Que terror. Enquanto ele contava sobre seu trabalho, viagens e sonhos, eu não conseguia deixar de observar aquela pontinha subindo e descendo, como em um jogo de ping pong.
Primeiro odiei. Senti um intruso nas nossas conversas. Alguém que sempre dava aval às palavras do Jacques. Mas os reencontros entre nós começaram a ser freqüentes e, conforme conquistávamos intimidade, comecei a admirar a forma como seu nariz e sua boca concordavam entre si. Depois que o primeiro “te amo” foi dito duas vezes no mesmo segundo, não tive porquê não gostar.
Publicado em Uncategorized
Amor ao inverso.
Tenho uma tia que tinha como grande objetivo na vida se casar. Até no supermercado ela procurava um bom partido, alguém que fizesse a sua vida valer a pena – como se sozinha ela não fosse capaz. Aconteceu que, aos quarenta anos, fracassada em seu objetivo, tia Rosane foi a Paris fazer um curso de culinária. E lá se apaixonou por um colega de curso que, no Brasil, morava a apenas duas quadras da sua casa.
Em um desabafo às vésperas do seu casamento, a tia confessou que encontrou um amor logo que desistiu de procurá-lo. Esta é a verdade, quanto mais procuramos algo, maior a chance de nunca encontrar.
Quantas vezes minha tia se cruzou na rua com seu futuro marido sem ao menos notá-lo? Enquanto se preocupava em achar um grisalho charmoso não observou a careca de Ronaldo, que levava seu cachorro para passear. Quantas vezes minha tia esnobou os olhos castanhos e expressivos de Ronaldo, por achar que merecia um namorado de olhos verdes?
Enquanto buscava, aficcionada, uma companhia, tia Rosane ia ao cabelereiro todas as sextas, pintava as unhas só de vermelho e sorria calculadamente. Chegou à França e se livrou do seu pecado mortal, da sua ânsia de parecer perfeita. Natural, ficou mais bonita. E conheceu Ronaldo quando estava feliz o suficiente, sem mais precisar de alguém para dar sentido à sua vida. Se sozinha se bastava, juntos extrapolavam.
Publicado em Uncategorized
Os olhos doem.
Não consigo lembrar se já postei isso aqui. Escrevi em novembro de 2005, e achei agora. Meio mais ou menos? Dá um desconto, eu tinha 16 anos.
Os olhos doem. De tanto olhar às direções e cegar o presente. A garganta dói. De tanto tentar anunciar o futuro em vão. A cabeça dói. De tanto tentar entender as outras dores. O coração dói. De tanto enxergar as dores e nada curar. A dor sustenta a vida como a raíz sustenta a árvore. Sem a raíz, a árvore é livre, é solta, mas não é árvore. A dor carrega a vida como a formiga carrega a folha. Devagar, com cuidado, como quem quer chegar a algum lugar. A vida sem a dor seria apenas de uma cor. A cor mais bonita. Porém não se saberia valorizá-la. A vida precisa da dor como o vermelho precisa do cinza. Apenas quem conhece o cinza gosta do vermelho. A dor não deve ser contestada nem odiada, apenas tolerada, como quem aguenta a tempestade só para ver o arco-íris.
Publicado em Uncategorized
Um texto romântico, finalmente

O que você vai achar de mim se eu não viajar? Uma idiota. Ela foi. Pegou o primeiro avião. O segundo. O terceiro. E chegou. E quando chegou, lembrou dele. E enquanto ela viajava, ele pensava se ela já teria chegado. E quando ela entrou no hotel, olhou a cama king size e pensou nele. E ele pegou o carro e foi pra praia com os amigos. E a cada onda que pegava no mar, lembrava dela. E ela visitou montanhas com neve, e brincou de escrever o nome dele no gelo. E ele rabiscou o nome dos dois na areia. E quando chegou o inverno para ele, chegou o verão para ela. E ela foi pra praia. E lá olhava para o mar e lembrava dele. E ele colocou o cachecol que compraram juntos, e lembrou dela. E quando comeu fondue com a família, deixou uma cadeira vazia ao seu lado. E outro verão chegou para ele. E ele de novo foi pra praia. E de novo pensou nela. E quando passou protetor solar nas suas costas, lembrou que era ela quem passava. E ela, no frio, de novo escreveu o nome dele na neve. E quando caiu do ski imaginou que ele riria se estivesse junto. E no aniversário dele ela comprou um bolo e apagou as velinhas, sozinha. E no aniversário dela, ele abriu uma champagne, serviu duas taças, e só tomou uma. E numa noite estrelada da meia estação, ele olhou para o céu e viu a estrela que eles tinham escolhido, juntos. E na mesma noite ela olhou para o céu, viu a mesma estrela, e sorriu. E quando choveu muito, ele saiu de casa com o guarda-chuva que ela tinha dado. E ela, quando comeu marzipan, lembrou que era ele quem gostava. E quando o inverno chegou de novo, ele comeu pinhão e pensou nela. E ela, no verão, tomava sorvete de todos os sabores que ele gostava. E tomava dois, três banhos por dia, porque era calor, e lembrava dele. E usava o biquíni que tinha ganhado dele, de Natal. E ele, quando chegou o verão, foi pra praia com os amigos, mas não surfou, porque estava com a perna quebrada. E lembrou do que ela assinou no seu gesso, quando quebrou o braço. E riu. E no aniversário dela, ele foi jantar sozinho. E no aniversário dele, ela colocou uma música bem alta, e dançou. E ela, sempre que voltava do trabalho olhava para o céu e procurava a estrela dos dois. Ele se mudou para uma cobertura, e todas as noites caçava as estrelas, e lembrava dela. E quando via uma estrela cadente, fazia o mesmo pedido. Até que um dia, ela voltou. E ele foi buscá-la no aeroporto. E quando se abraçaram, um abraço apertado, demorado, os dois pensaram, em silêncio, a mesma frase, de Pascal, que repetiam um para o outro na juventude. O coração tem razões que a própria razão desconhece.
Publicado em Uncategorized
Acorda menina

Morri. Morri ontem de manhã. Acordei cedo, tomei o mesmo café preto e peguei o mesmo ônibus de sempre. Desci na mesma parada, e assisti às mesmas aulas de quartas-feiras, repletas de vaidade, hipocrisia e uma dose de saudosismo. Saí mais cedo. Peguei o ônibus do outro lado da rua, passei pela praça, vi o menino tocando violão e desci no Centro. Fiz compras e, em casa, encomendei um livro pela internet. Almocei. Depois disso não lembro de mais nada. Estou morta. E o pior é que amanhã será tudo igual.
Publicado em Uncategorized
Fevereiro de 2006
Ainda te vejo pelas frestas que sobraram. São poucas, escuras e trêmulas, mas são tuas. Sobraram do nosso passado, se algum dia existiu. São os restos dos nossos sonhos, do futuro que construiríamos juntos e que desabou na primeira camada. Não sobreviveu a ventanias e à oposição. Logo se desfez, como um nó que ainda não está entrelaçado e já é rompido. Mas então, pode-se chamá-lo de nó? As frestas te dizem diferente, ocultam partes de ti e mostram outras. Aquele que conheci é o mesmo, mas às vezes não parece. No meu lugar há sombras, não sei se bem preenchidas. Não é possível ver se tu também buscas estas frestas, tentando olhar o passado, relembrar os momentos e me ver de relance. Não há indícios de que tu estás marcado como eu estou. Sou composta pelas lembranças da tua companhia e pelos poucos rabiscos que fizemos desordenadamente nos registros da vida. Talvez seja ilusão minha, mas pelas frestas enxergo um arco-íris que deixa a ti melhor do que és. Não te desqualifico, nem te faço menor, mas tal tom faz com que o meu passado seja colorido, idealizado por um ar de esperança, que embora amassado ainda está presente em mim. E sabe, não enlouqueço quando vejo no lugar do tesouro, um abraço, de relance, que me acelera o coração como quem diz ‘sonhar ainda não é proibido’.
Publicado em Uncategorized
Num papel amarelado…

Te escrevo para calar meus soluços. Mas tudo o que consigo é chorar cada vez mais. Custei a tentar marcar o papel com as minhas palavras, custei a tentar carimbar os meus sentimentos. E já não tenho esperanças de que eu deixe de sofrer depois de escrever para ti. Talvez até amanhã as lágrimas cessem, talvez por um tempo eu deixe de pensar em ti. Mas daqui alguns dias, enquanto eu estiver no ônibus, vou ouvir uma voz parecida com a tua e o meu peito vai voltar a disparar. Ou então, quando eu estiver ouvindo rádio, vou escutar Metallica e tudo que virá na mente será aquela nossa tarde de quinta-feira, juntos. Como calar meu coração? Como explicar para ele que os teus carinhos duraram por um mês ou dois, que foi só uma experiência e que ele tem de se acostumar de novo com a solidão? Como explicar que me enganei, que nos enganamos juntos – eu e ele –, que abrimos nossas portas para alguém errado? E como dizer que esse alguém era errado, se tudo o que eu sei é que ele era certo demais?
Publicado em Uncategorized
só mais um clichê?
eu ontem senti saudades. do teu perfume, do teu abraço, do teu jeito estranho de me admirar dormindo, enquanto sequer estou sonhando. eu ontem senti saudades. uma saudade boa, uma saudade de menina, de quem corre com suas tranças voando. e se na vida eu não sentir mais nada, bastou. valeu pela juventude inteira. posso vir a gritar, e até morrer, mas de saudade fui feliz.
Publicado em Uncategorized
O último homem
Eu era só. Um homem escondido por entre amigos. Meio perdido por entre os trilhos. Eu era só. Um homem parado, um pouco cansado, um pouco levado. Eu era o que não sou. Um homem sentado, um homem esquecido. Um homem jogado, um homem partido. Procurei meu coração e não achei. Já não sou homem, não me escondo, não me parto. Não me levo, não deixo que me levem. Eu não sou nada. E sendo nada, eu vivo o vazio.
Publicado em Uncategorized
Chega de palavras
Andei por aí sem rumo e te encontrei no meu travesseiro.
Publicado em Uncategorized
Sobre o sentido da vida e reticências

“Dostoievski, no seu livro Recordações da casa dos mortos, em que descreve a vida de prisioneiros na Sibéria, disse haver descoberto um trabalho que os enlouqueceria. Bastaria que houvesse duas piscinas, uma cheia d’agua, outra vazia. O trabalho dos prisioneiros seria transferir com baldes a água da primeira piscina para a segunda. No dia seguinte, transfeririam a água da segunda piscina para a primeira. No terceiro dia, transfeririam a água da primeira piscina para a segunda. E assim por diante. Não era um trabalho excessivamente árduo: carregar baldes de água. Por dez anos, por trinta anos, pelo resto da vida. Sempre uma piscina estaria cheia e outra estaria vazia. O que enlouquece não é o trabalho forçado; é a falta de sentido.”
Hoje, eu sou a água dessas piscinas. E só.
E de novo parafraseando Rubem Alves, vou explicar minha ausência do blog nesse tempo:
“Faziam silêncio não por não ter nada a dizer, mas porque o que tinham a dizer não cabia em palavras.”
Publicado em Uncategorized
Silêncio, arte e amor.
Ontem você partiu. E agora, se ainda sou mulher, sou uma mulher partida.
Publicado em Uncategorized
desOrDEM.
Eu prefiro o caos. Porque o caos me instiga a decifrá-lo. E com o silêncio o que se faz?
Publicado em Uncategorized
Cegueira
Já não tenho olhos pra você
Que a vida inteira me fez crer
Que o destino é nosso amigo.
Publicado em Uncategorized
No aeroporto
Me despedi de ti de olhos fechados, porque achava que se não te visse indo embora, você não partiria. Seria só uma ausência momentânea, duas vidas que se afastam por um tempo, mas que depois se reencontram e voltam a, juntas, dançar. Mas a saudade não abandona os amantes. E hoje sinto falta justamente da tua habilidade de me fazer feliz a todo instante. De me criticar com amor e de curar minhas irritações com a rapidez de um abraço. Sinto falta de te ver dedilhando o violão, enquanto diz que eu não tenho ritmo, que música não é pra mim. E logo pedia pra eu cantar uma canção, a nossa canção, e me ensinava a tirar notas musicais – apesar da minha falta de talento. Achei que não fosse sentir falta da tua malandragem, da tua estúpida mania de intercalar gírias e palavrões. Achei que fosse ser um alívio não ouvir tuas piadinhas a cada vez que se lembrava da nossa diferença de idade. Nada mais tem graça depois que tu partiu. Já não espero ouvir tua voz quando atendo ao telefone, nem mais penteio o meu cabelo pro lado, como tu tanto gosta. Já não me importo de repetir a roupa de ontem, hoje. E agora, quando penso em ti – a todo instante -, eu fecho os olhos. E se fecho os olhos é porque, de olhos fechados, eu ainda sou feliz.
Publicado em Uncategorized
Fictícia
Eu tava no ônibus com uma dessas câmeras fotográficas da Famecos, com aquela sacola preta enorme e feia que só a Famecos tem. E enquanto eu arrumava o ISO, o diafragma e mais todas essas balaquinhas, um cara – meio bêbado, meio louco – me tirou pra grande jornalista, pra pessoa que vai mudar o planeta. E tentando ser poeta, ele disse: “O fotógrafo vê o que ninguém vê, sente o que ningém sente e, acima de tudo, mais do que ler as entrelinhas, ele as descobre”.
Então tá.
Publicado em Uncategorized
A Alma Imoral
“Quantos de nossos esforços são, na verdade, oferendas ao nada?”
Nilton Bonder / Clarice Niskier
Publicado em Uncategorized
Pra não dizer que não falei das flores
Arthur Delain: “Em 1968, acordei de madrugada sem nada para fazer. Às vezes, acho que ainda não voltei a dormir”.
Publicado em Uncategorized
Orfanatrófio lotado
O ônibus passa pela Rua do Arvoredo, enquanto eu vejo rostos pálidos puxando sacolas pesadas e olhos murchos que já não levam nada. Enquanto eu ouço gente gritando sem falar nada e ouvidos surdos compondo versos… E penso que ainda carrego, cantando, o melhor de mim.
Publicado em Uncategorized
Homestay Family
A família que me hospedou no intercâmbio era normal. Normal demais. Educada, falava por favor e obrigado sempre. Não me deixava lavar a louça nem arrumar a cama. Doces, as crianças só podiam comer no final de semana. E refrigerante só light. Em mim não colocava limites. Dava para perceber que se esforçava para ser boa anfitriã. Mas era normal demais.
Nesse tempo, brinquei com as crianças todos os dias. Corria pelo corredor com elas, me escondia atrás da porta para dar sustos, virei o que nunca fui: irmã mais velha. Ensinei palavras em português, cantei Saltimbancos e até tentei fazer com que falassem algumas frases na minha língua. E quando os pais negavam guloseimas, eu dava escondido, enchendo seus bolsos de balas.
Mas no meu último fim de semana no Canadá, aconteceu algo muito estranho. As crianças invadiram meu quarto e fizeram barulho. Até aí, normal. Mas gritaram. Berraram. Até que me acordei. E de pijama fui para a sala ver o que estava acontecendo. Encontrei toda família reunida cantando parabéns numa felicidade contagiante. Um bolo, na forma de coração, estava sobre a mesa. E todos em volta da gaiola do passarinho, que completava cinco anos.
Publicado em Uncategorized
Último Gole
Julho de 2007
“Prometi que não derramaria nenhuma lágrima por causa dele. E chorei lágrimas honestas, que escorreram sem esforço algum. Foi tudo natural. As palavras me ardiam o peito sem dó. Minhas mãos permaneceram gélidas enquanto meu corpo se destruía aos poucos. Parecia o fim do mundo e naquele momento era.
Aos poucos as lágrimas secaram. O peito já não mais ardia. O mundo, para minha surpresa, continuou a girar. E me recuperei. A dor se manteve por mais um tempo. Depois, quase tudo sarou, mas as palavras que ouvi se mantiveram em mim. Estão todas acumuladas em minhas tristes lembranças. Sou incapaz de me desfazer delas, tais como feridas eternas. Sinto-me presa ao passado, tempo no qual eu podia sonhar. Encontro-me num ceticismo doentio, desacreditado e perpétuo.
Liberto-me aos poucos e já não há palavras que me doam.
Acho que estou morta.”
Publicado em Uncategorized
Leda
Filha de um casal de médicos, minha mãe nasceu em Porto Alegre, mas morou em São Sebastião do Caí até os 10 anos. Quando veio a contragosto de muda para a capital, deu sua boneca preferida, trazida de uma viagem aos Estados Unidos, para sua madrinha e vizinha cuidar.
Quando completei 10 anos recebi a visita da Dona Zilda, já velhinha, e de presente a mesma boneca, que já veio com nome: Leda. Veio também com alguns arranhões e marcas que minha mãe deixou, rastros da sua infância.
Vendo o presente, senti um misto de fascinação e de horror. Estava acostumada a rasgar as embalagens em busca dos presentes, sempre advertida pela minha mãe, que desejava reaproveitar os papéis. Nunca tinha recebido nada de forma tão simples. A boneca, toda reformada, era sobrevivente de outros tempos e, mesmo horrível, fora o presente mais original que até hoje eu ganhei.
Guardo a Leda, com a cabeça solta e sem cabelos, numa sacola verde no fundo do meu armário, para um dia entregá-la para minha filha. E não importa o quão destruída ela esteja, as marcas da minha infância nunca me assustam.
Publicado em Uncategorized
Do Coração
Publicado em Uncategorized
Endecha, não deixa, não deixa
Esta foi a primeira crônica da minha vida. Ou a primeira crônica que fiz com a consciência de que seria, finalmente, uma crônica. Na segunda aula da oficina de crônica do Carpinejar, no Studio Clio, me arrisquei a ler o que tinha escrito em casa. Antes de iniciar a leitura, falei duas ou três vezes “acho que fiz errado, acho que fiz errado”. E, quando terminei, ele exclamou: “Se isso não é crônica, eu não sei escrever”. Tenho motivos suficientes para ter um carinho por estas palavras, né?
Todos já tivemos um tio chato e inadequado, que pensa que os sobrinhos são alienígenas burros e toscos. O meu se chamava Jorge. O irmão da minha mãe me conheceu antes mesmo de nascer e sempre achou que sabia mais do que eu.
As minhas grandes aventuras de infância se resumiram a fugir do tio Jorge. Em todos os almoços de família, ele chegava gritando meu nome com aquela voz rouca. Eu partia em busca de um esconderijo próximo. Quando o silêncio pairava perto de mim, saía lentamente do meu abrigo e me apresentava na sala, sempre protegida pelo Bob, meu urso de pelúcia. Mas o medo ainda estava presente e eu ansiava que o tio me visse, que apertasse com força as minhas bochechas.
Na minha juventude, os gritos do tio Jorge cessaram. Talvez porque ele tenha se dado conta de que eu não mais cabia nos esconderijos apertados da minha infância. Mas, em cada encontro, ele me questionava sobre os significados das palavras da língua portuguesa, exigindo que eu lesse o dicionário, aquele livro cheio de palavras inúteis. O que é um próton? Como se chama o ovo do piolho? Como eu odiava aquelas perguntas prontas, o jeito estúpido que o tio tinha de se achar superior. E por isso, sempre que eu tinha alguma dúvida, consultava o dicionário, lia na enciclopédia, buscava argumentos, discursava diante do espelho, tudo para que quando eu encontrasse o tio Jorge, eu pudesse mostrar como eu estava grande, como eu sabia das coisas.
Numa tarde de abril, enquanto eu procurava o significado de endecha, minha mãe me avisou que o tio Jorge tinha morrido. Achei que fosse uma brincadeira dos dois e que logo ele entraria no meu quarto com aquele sorriso insuportável, fazendo as piadas bestas de sempre. Mas, precisei aprender sozinha os diversos significados da palavra libra e a diferença entre limão-galego e limão-cravo.
Publicado em Uncategorized
Das rápidas
Não entendo como alguém consegue escrever um texto a lápis. Estranho o hábito de carimbar verdades no papel aguardando para apagá-las. Palavras devem ser cravadas, ditas para a eternidade.
Não gosto de pessoas em cima do muro, de quem fala “tanto faz”. É preciso ter opinião, dizer com força, afirmar até o fim – mesmo que se esteja errado.
Abdiquei do lápis aos doze anos. Junto à tinta vieram as certezas e a responsabilidade de falar para sempre. Às vezes encontro algum lápis perdido nas gavetas e até brinco de usá-lo. Porque temer o inimigo é pior.
Não simpatizo com o hábito de depender do apontador para expressar as idéias. Tenho um amigo que se esmera tanto apontando o lápis que esquece o que vai escrever. Sinceramente, prefiro palavras tortas, rasuradas, mas espontâneas.
Publicado em Uncategorized
RobertoRobertoRoberto
Como eu odeio o Saramago! Nunca consegui ler este escritor! Começa por este nome ridículo. Vogais intercaladas por consoantes. Pares e ímpares. Como se estivéssemos brincando de simetria.
Admito, por um tempo meu sonho foi ler Ensaio sobre a cegueira. Que título grandioso! Eu anunciava nas rodas de conversa que este seria meu próximo livro e o Roberto sempre dizia para eu ir com calma, para eu esperar por mais um tempo. Madura. Era isso que ele dizia. Que eu devia esperar para estar madura.
Foi tudo culpa dele, do Roberto. Era férias e a nossa relação não ia bem. Nos encontramos para uma conversa importante e entre whisky e amendoins decidimos separar os travesseiros.
Resgatei minhas tralhas, meus restos que repousavam no lar dele. Em casa desfiz a sacola e libertei meus objetos. Lancei-os sobre o chão, malditos! Só aí que percebi o intruso literato. Ensaio sobre a cegueira, o livro que eu tanto quis ler tinha caído por entre as roupas!
Roberto sempre adiava a minha leitura e agora me entregava o livro. Eu podia imaginar aquele seu nariz, a testa quadrada, a expressão naval dos seus olhos enquanto ele dizia que esta era a minha hora. Que agora eu estava madura o suficiente para ler o meu gênio. Ele preferiu ser covarde, falar tudo isso sem palavras. Confesso que folheei página por página, procurei por entre as palavras do Mago uma carta escondida que pudesse me sarar.
Primeiro o que senti foi raiva. Raiva desse escritor, dessa cegueira, dessas páginas amareladas que tanto fediam. Fediam a perfume do Roberto. Tinham o cheiro daquela pele, daquele corpo, que eu tanto estava acostumada a sentir. Depois meu sentimento foi mais profundo. Ódio. Porque enquanto eu odiava esse livro, eu deixava de odiar o Roberto.
Saramago nunca me desceu. Não passei da terceira página e já nem quero passar. Não consegui ler Ensaio sobre a cegueira porque eu enxergo tudo. Tudo mesmo. Tudo de novo. Devagar. Aquele rosto de relance. E enquanto eu estiver enxergando o Roberto, vou preferir mesmo ser cega.
Publicado em Uncategorized
Monte Royal
Inspirada nas confissões da Júlia Otero (leia-se Otêro) a respeito da sua experiência na África do Sul, resolvi contar minha vivência, que é ironicamente parecida.
Fiz intercâmbio aos 16 anos, por pouco não foi aos 15. Levei na mala roupas, livros, sonhos juvenis e a vontade de mudar o mundo. Na minha cabeça jovem revolucionária, que abandonava o conforto do quarto aquecido e do travesseiro macio, eu rumava para a maior aventura da minha vida. E o Canadá parecia ser o país ideal para uma menina em plena adolescência se independizar dos pais. Lá os índices de violência são baixos, as pessoas são receptivas e o sistema de ensino é bom. A minha aventura seria no paraíso!
Esqueceram de me avisar que eu encontraria os maltrapilhos canadenses nos metrôs. Deixei o Brasil da miséria e dos problemas sociais para me deparar com criaturas sem teto! Depois do choque e do susto, senti pena. Seria cômico – se não fosse trágico – encontrar mendigos fluentes no inglês e no francês. Se fossem para o Brasil conseguiriam um bom emprego.
Fiz com eles, os pedintes, o que jamais ousei fazer no Brasil: os alimentei. O almoço que a família canadense me dava não era bom e aprendi com uma outra intercambista a colocá-lo sobre os telefones públicos, na própria estação de metrô. Nunca vi nenhum homeless pegando a embalagem de comida, sempre que eu virava para trás, depois de alguns passos, o pacote já tinha sumido.
Bonito, Gabriela, muito bonito. Mas por que durante este inverno eu alimentei os indigentes de Montreal se em toda a minha vida eu não fiz isso no Brasil? Procuro nas minhas esquinas algo que explique. Precisei ir embora para enxergar o que ficou do Brasil em mim. E no fundo eu sei que o que me tocou foi a surpresa. O inesperado. O velho em forma de novo. Eu me solidarizei aos sem teto canadenses para não ouvir os gritos dos famintos brasileiros.
Publicado em Uncategorized
LulaLá
29 de outubro de 2006. Segundo turno das eleições. Vamos todos fingir que vivemos numa democracia e que escolher os nossos candidatos é bom. Mal sabemos que na verdadeira democracia não há obrigatoriedade de voto. Vamos todos juntos escolher os melhores, aqueles que não nos farão de bobos e que jamais colocarão seus próprios interesses na frente dos do povo. E depois acordaremos do sonho que terá durado menos de vinte e quatro horas. Voltaremos à realidade e de novo ouviremos escândalos e acusações que acabarão impunes novamente. E depois diremos que os candidatos não prestam, mas já vamos ter esquecido que quando tivemos oportunidade de colocá-los todos fora do senado, não o fizemos. Já nem lembraremos que eles estão lá devido ao nosso voto e que nos mantermos passivos a todos escândalos é também uma forma de nos desrespeitarmos. Estranho ter que escolher os candidatos, decidir sobre os próximos quatro anos do país verde e amarelo, quando não sei nem o que estarei fazendo no próximo mês. É complicado reclamar das falsas promessas e das frias ideologias, quando tantas vezes eu também me corrompo e opto pelo caminho menos recomendável. Estranho querer colocar ordem num país inteiro quando dentro de mim está tudo tão bagunçado. Temos mania de pensar que o que não nos diz respeito sempre é mais fácil. Pois vemos, quando temos a chance de mudar a administração, que nada!, preferimos manter tudo como está. Depois não adianta reclamar sobre a segurança, quando não nos sentimos seguros nem para trocar de candidato. Quando estivermos aptos a arcar com as conseqüências e admitir que a nossa escolha reflete no futuro de todo país, nos sentiremos mais confiantes não só diante das urnas, mas também diante do espelho.
Hmmm, não sei se ainda tenho essa vitalidade de um ano e meio atrás.
Publicado em Uncategorized
O corpo do copo
Minha infância foi lotada de perguntas sobre o ciclo das coisas. Por que o mundo gira numa só direção? Quem escolheu o sentido dos ponteiros do relógio? Por que vejo sempre o mesmo lado da lua? E por que o norte fica em cima e o sul, em baixo?
Foi na infância a primeira vez. Numa madrugada qualquer, levantei da cama e rumei, na ponta dos pés, até a cozinha. Abri a geladeira e alcancei a jarra. Não era sede o meu problema. Eu precisava de novas aventuras, queria sentir o famoso frio na barriga.
Depois disso, bebi água pelo bico da jarra por incontáveis vezes. E não foi só na meninice. Cresci, aumentei de peso, de tamanho, ganhei corpo e nunca mais me livrei deste vício desgraçado. Mas o que era igual, sempre igual, era a emoção de fazer isso escondida.
Quer saber, acho mesmo que todos deveriam beber um dia pelo lado contrário. Isto é se arriscar um pouco a ser diferente. Pois cada vez que encosto meus lábios no bico da jarra, sinto que por um ou dois segundos eu consigo inverter o ciclo do mundo.
Publicado em Uncategorized
N o E s p a ç o . . .
Lançados no espaço, os pensamentos se organizam em filas.
Publicado em Uncategorized
Doutora das Palavras
Mal conheci o Zé e já fui apresentada para aquele bando de amigos literatos dele, para os tantos escritores que ele carregava debaixo do braço. Eram todos como um gigante e eu, uma pequena mulher. E confesso que isso me seduziu, foi legal ter alguém grande diante de mim.
As frases do Zé eram recheadas de citações das obras de Dostoievski, Goethe, Shakespeare e às vezes até de Freud e Jung e ele não se constrangia em mostrar a sua riqueza cultural e em dizer que o que mais o interessava nas mulheres era a inteligência. Humilhante dizer isso para quem no máximo podia dissertar sobre as leituras obrigatórias do vestibular.
Menina orgulhosa que sou, não aceitei o desprezo do Zé e mergulhei no universo das palavras. Foram anos lendo dois, três, as vezes quatro livros por semana. Sem perceber, aprofundei-me na vida dos escritores, dos tradutores, e até dos editores. E digo, até que gostei dessa brincadeira de correr atrás do conhecimento, de entrar nas livrarias pensando no Zé e sair carregada de livros, doutora das palavras.
Precisei de tempo pra ampliar minha cultura. Tempo e paciência. Foram longas as madrugadas sem dormir, nas quais transformei os livros em cúmplices. E quando eu não estava lendo, ia ao cinema. Ou ao museu. Até que hoje, o Zé, querendo uma indicação literária, ligou para mim. Para ele, cresci. Mas agora sou tão grande que já nem preciso da companhia do Zé. Os livros me bastam.
Publicado em Uncategorized
O tato age
Um livro em especial chamou minha atenção nesta última semana. “Tatuagem, piercing e outras mensagens do corpo”, da jornalista Leusa Araujo, é uma obra diferente. Não porque aborda o comportamento humano, mas porque trata uma prática com mais de cinco mil anos de forma inovadora. Depois de terminar a leitura, algo me intrigou. Incomodou até. Senti motivação para pesquisar sobre a evolução da tatuagem, sobre como um mesmo ato teve seu significado tão mudado num curto espaço de tempo.
Por que a cultura ocidental ainda tem resistência à tatuagem? Mesmo que isto tenha diminuído com as novas gerações, é comum encontrarmos pouca aceitação dos mais antigos. Logo que comecei esta pesquisa, deparei-me com uma questão complicada: a guerra. Que se usasse tatuagem no Egito por motivos religiosos, eu entendo. E é compreensível que os índios de determinadas tribos marcassem uns aos outros para diferenciar os bons guerreiros. Mas quando li sobre as práticas da Segunda Guerra Mundial, senti que eu tinha que mergulhar fundo no assunto.
Dito e feito. A culpa é da guerra. Embora no Brasil normalmente não encontremos resistência tão grande, na grande parte dos países ocidentais é comum que a tatuagem seja tratada como castigo, já que na Alemanha nazista esta prática foi aplicada. Os judeus eram marcados com números, os mesmos carimbados nos bois e nos cavalos. E isto é uma ironia sem tamanho. É engraçado que hoje uma marca que representa a liberdade é justamente a mesma que há 60 anos era o símbolo da tentativa de dominação de uma cultura sobre a outra.
Um corpo tatuado é um corpo exposto. É um corpo que se arrisca, como o de um marinheiro ou de um soldado. Um corpo tatuado é um corpo marcado para sempre, apesar das técnicas de reparação que estão sendo desenvolvidas. E é inegável que um corpo tatuado seja um transmissor de mensagens ou um divulgador de idéias, com a mesma função das roupas e das maquiagens que usamos.
A verdade é que a tatuagem é uma incontestável tentativa de libertação. Todos almejam ser diferentes para a sociedade, mas iguais diante dos seus pares. Se os adeptos desta cultura tiverem consciência de que o mais importante é evoluir internamente e não só se transformar do lado de fora, a tatuagem finalmente terá a oportunidade de se consolidar como uma ação positiva.
Publicado em Uncategorized
O título
As pessoas precisam se comunicar. Esta é uma necessidade básica do ser humano. Não há um instante sequer que os homens deixam de interagir. Nem sempre é preciso palavras para que uns entendam aos outros. Expressões, olhares, roupas e sinais também passam idéias. E é por isso que eu digo que tudo tem um motivo. Ninguém usa um all star amarelo sem uma intenção, mesmo que essa seja inconsciente.
Não existe nada mais significativo do que o nome de um blog. O nome é o cartão de visitas, é a primeira impressão. Como explicar, então, a escolha de Lado Inverso? O que exatamente eu quis passar quando digitei as 11 letras, separadas por um espaço? Nem eu sei.
Era para ser Lado Avesso. Não a marca de jeans, é claro. Há anos que eu planejava criar um blog com esse nome, para depois nomear meu livro assim também. Mas Lado Avesso não deu, o servidor não deixou. Outro usuário correu antes de mim e escolheu este título. Ponto pra ele. E eu fiquei imaginando nomes que expressariam a minha idéia. Durante duas horas, contadinhas no relógio, não encontrei nenhum. Mas mais tarde, enquanto eu procurava, enlouquecida, palavras no dicionário, pensei em Universo. E transformando as letras, vi que este na verdade não é o meu lado avesso, é o inverso. O inverso de mim está aqui, como se a tela fosse um espelho e você estivesse do outro lado.
Publicado em Uncategorized
Estréia
O primeiro post é sempre silencioso. Equilibrado, eu diria. Ninguém faz barulho no primeiro post. E isso não é por falta de personalidade. O silêncio é por causa do novo, do desconhecido. É pela falta de intimidade. Na próxima vez prometo já chegar batendo panela.
Publicado em Uncategorized


