Lado Inverso

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Monte Royal

Maio 20, 2008 · Sem Comentários

Inspirada nas confissões da Júlia Otero (leia-se Otêro) a respeito da sua experiência na África do Sul, resolvi contar minha vivência, que é ironicamente parecida.

Fiz intercâmbio aos 16 anos, por pouco não foi aos 15. Levei na mala roupas, livros, sonhos juvenis e a vontade de mudar o mundo. Na minha cabeça jovem revolucionária, que abandonava o conforto do quarto aquecido e do travesseiro macio, eu rumava para a maior aventura da minha vida. E o Canadá parecia ser o país ideal para uma menina em plena adolescência se independizar dos pais. Lá os índices de violência são baixos, as pessoas são receptivas e o sistema de ensino é bom. A minha aventura seria no paraíso!

Esqueceram de me avisar que eu encontraria os maltrapilhos canadenses nos metrôs. Deixei o Brasil da miséria e dos problemas sociais para me deparar com criaturas sem teto! Depois do choque e do susto, senti pena. Seria cômico - se não fosse trágico - encontrar mendigos fluentes no inglês e no francês. Se fossem para o Brasil conseguiriam um bom emprego.

Fiz com eles, os pedintes, o que jamais ousei fazer no Brasil: os alimentei. O almoço que a família canadense me dava não era bom e aprendi com uma outra intercambista a colocá-lo sobre os telefones públicos, na própria estação de metrô. Nunca vi nenhum homeless pegando a embalagem de comida, sempre que eu virava para trás, depois de alguns passos, o pacote já tinha sumido.

Bonito, Gabriela, muito bonito. Mas por que durante este inverno eu alimentei os indigentes de Montreal se em toda a minha vida eu não fiz isso no Brasil? Procuro nas minhas esquinas algo que explique. Precisei ir embora para enxergar o que ficou do Brasil em mim. E no fundo eu sei que o que me tocou foi a surpresa. O inesperado. O velho em forma de novo. Eu me solidarizei aos sem teto canadenses para não ouvir os gritos dos famintos brasileiros. 

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LulaLá

Maio 20, 2008 · 1 Comentário

29 de outubro de 2006. Segundo turno das eleições. Vamos todos fingir que vivemos numa democracia e que escolher os nossos candidatos é bom. Mal sabemos que na verdadeira democracia não há obrigatoriedade de voto. Vamos todos juntos escolher os melhores, aqueles que não nos farão de bobos e que jamais colocarão seus próprios interesses na frente dos do povo. E depois acordaremos do sonho que terá durado menos de vinte e quatro horas. Voltaremos à realidade e de novo ouviremos escândalos e acusações que acabarão impunes novamente. E depois diremos que os candidatos não prestam, mas já vamos ter esquecido que quando tivemos oportunidade de colocá-los todos fora do senado, não o fizemos. Já nem lembraremos que eles estão lá devido ao nosso voto e que nos mantermos passivos a todos escândalos é também uma forma de nos desrespeitarmos. Estranho ter que escolher os candidatos, decidir sobre os próximos quatro anos do país verde e amarelo, quando não sei nem o que estarei fazendo no próximo mês. É complicado reclamar das falsas promessas e das frias ideologias, quando tantas vezes eu também me corrompo e opto pelo caminho menos recomendável. Estranho querer colocar ordem num país inteiro quando dentro de mim está tudo tão bagunçado. Temos mania de pensar que o que não nos diz respeito sempre é mais fácil. Pois vemos, quando temos a chance de mudar a administração, que nada!, preferimos manter tudo como está. Depois não adianta reclamar sobre a segurança, quando não nos sentimos seguros nem para trocar de candidato. Quando estivermos aptos a arcar com as conseqüências e admitir que a nossa escolha reflete no futuro de todo país, nos sentiremos mais confiantes não só diante das urnas, mas também diante do espelho.

 

 

Hmmm, não sei se ainda tenho essa vitalidade de um ano e meio atrás.

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Cirque du Soleil

Maio 18, 2008 · Sem Comentários

Cirque du Soleil, lindíssimo.

 

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O corpo do copo

Maio 11, 2008 · 2 Comentários

Minha infância foi lotada de perguntas sobre o ciclo das coisas. Por que o mundo gira numa só direção? Quem escolheu o sentido dos ponteiros do relógio? Por que vejo sempre o mesmo lado da lua? E por que o norte fica em cima e o sul, em baixo?

 

Foi na infância a primeira vez. Numa madrugada qualquer, levantei da cama e rumei, na ponta dos pés, até a cozinha. Abri a geladeira e alcancei a jarra. Não era sede o meu problema. Eu precisava de novas aventuras, queria sentir o famoso frio na barriga.

 

Depois disso, bebi água pelo bico da jarra por incontáveis vezes. E não foi só na meninice. Cresci, aumentei de peso, de tamanho, ganhei corpo e nunca mais me livrei deste vício desgraçado. Mas o que era igual, sempre igual, era a emoção de fazer isso escondida.

 

Quer saber, acho mesmo que todos deveriam beber um dia pelo lado contrário. Isto é se arriscar um pouco a ser diferente. Pois cada vez que encosto meus lábios no bico da jarra, sinto que por um ou dois segundos eu consigo inverter o ciclo do mundo.

 

 

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