Todos já tivemos um tio chato e inadequado, que pensa que os sobrinhos são alienígenas burros e toscos. O meu se chamava Jorge. O irmão da minha mãe me conheceu antes mesmo de nascer e sempre achou que sabia mais do que eu.
As minhas grandes aventuras de infância se resumiram a fugir do tio Jorge. Em todos os almoços de família, ele chegava gritando meu nome com aquela voz rouca. Eu partia em busca de um esconderijo próximo. Quando o silêncio pairava perto de mim, saía lentamente do meu abrigo e me apresentava na sala, sempre protegida pelo Bob, meu urso de pelúcia. Mas o medo ainda estava presente e eu ansiava que o tio me visse, que apertasse com força as minhas bochechas.
Na minha juventude, os gritos do tio Jorge cessaram. Talvez porque ele tenha se dado conta de que eu não mais cabia nos esconderijos apertados da minha infância. Mas, em cada encontro, ele me questionava sobre os significados das palavras da língua portuguesa, exigindo que eu lesse o dicionário, aquele livro cheio de palavras inúteis. O que é um próton? Como se chama o ovo do piolho? Como eu odiava aquelas perguntas prontas, o jeito estúpido que o tio tinha de se achar superior. E por isso, sempre que eu tinha alguma dúvida, consultava o dicionário, lia na enciclopédia, buscava argumentos, discursava diante do espelho, tudo para que quando eu encontrasse o tio Jorge, eu pudesse mostrar como eu estava grande, como eu sabia das coisas.
Numa tarde de abril, enquanto eu procurava o significado de endecha, minha mãe me avisou que o tio Jorge tinha morrido. Achei que fosse uma brincadeira dos dois e que logo ele entraria no meu quarto com aquele sorriso insuportável, fazendo as piadas bestas de sempre. Mas, precisei aprender sozinha os diversos significados da palavra libra e a diferença entre limão-galego e limão-cravo.