A grande Shirin Ebadi

Quando entrou no palco, Shirin Ebadi pareceu uma mulher pequena. Porém, ao começar a falar, a primeira iraniana a se formar juíza se transformou em um verdadeiro gigante. A premiada Nobel da Paz em 2003, ativista dos direitos humanos, esteve em Porto Alegre nesta segunda-feira, 13 de junho, onde palestrou no Fronteiras do Pensamento.

Ebadi tirou o relógio do pulso e iniciou sua fala sobre a história do Irã. Situou o público diante da Revolução Islâmica, que em 1979 trocou um governo ditatorial por outro. Se não for substituída por uma democracia, “a saída de um ditador de um país não é suficiente”, disse.

A conferencista lembrou das desigualdades existentes em solo iraniano: “o valor da vida de uma mulher é metade do que vale a vida de um homem”. As indenizações que o governo paga aos homens em caso de acidentes é o dobro do valor que as mulheres recebem.

No Tribunal de Justiça, o testemunho de duas mulheres equivale à palavra de um homem. Ebadi explicou que os homens se casam com até quatro mulheres e têm direito ao divórcio sem justificativas. O mesmo não vale às esposas.

A religião oficial do Irã é o islã xiita, embora o cristianismo, judaísmo e zoroastrianismo também sejam aceitos. As pessoas que não seguem alguma fé reconhecida não possuem direitos. A crença bahai, que tem cerca de 300 mil seguidores no Irã, é um exemplo desta marginalização.

Shirin destacou que penas como apedrejamento, crucificação, chibatada e decepamento são comuns no Irã. As penalidades variam de acordo com a religião. Enquanto um indivíduo que segue o islã pode ser condenado a 100 chibatadas, pela mesma infração alguém de outra crença será executado. “A interpretação errada do islã leva a punições descabidas”, comenta Ebadi. 

Nas prisões iranianas está o maior índice de comunicadores presos. No último domingo, 12 de junho, Reza Hoda Saber, jornalista, morreu após uma longa greve de fome. Ebadi lembrou que atualmente há cinco mulheres atrás das grades aguardando a execução da sentença que as matará apedrejadas. De acordo com o próprio governo iraniano, em 2010 foram 300 as pessoas executadas.

A premiada ativista afirmou que qualquer violação dos direitos humanos que aconteça em alguma parte do mundo envolve a população mundial: “os direitos humanos são assuntos internacionais”. Com gestos rígidos, a pequena mulher disse que “a vontade do povo para a democracia no Irã é maior do que os problemas”.

A juíza finalizou sua fala afirmando que a população se mantém protestando de maneira pacífica: “somente com a pena e com a fala [o povo] combate o governo”. E completou: “finalmente a democracia virá ao Irã. Esse dia não está longe”.

Longamente aplaudida, Shirin Ebadi respondeu a questionamentos do público, rememorou o abraço de Lula a Ahmadinejad, confessou que queria ser recebida por Dilma Rousseff e que vê mudanças positivas no posicionamento do governo da nova presidente.

Na mesma noite em que a conheceu, Porto Alegre se despediu de Ebadi. Agora, com a consciência do seu real tamanho.

Uma resposta a A grande Shirin Ebadi

  1. Gabriela, agradeço muito as informações e mais uma vez fico orgulhosa com os teus interesses profundos e dignos. Abraço no coração.

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