“Ela se debateria ao longo de toda a vida entre a necessidade de pertencer e a tenaz insistência em manter-se à parte”
Uma ótima obra que li recentemente é “Clarice,”, de Benjamin Moser, jornalista, tradutor e escritor. Sou apaixonada por Lispector e, ao iniciar a leitura do livro, tive medo de me decepcionar com a biografia feita por um americano. Mas a reação que tive ao ler as quase 800 páginas foi de surpresa. Sempre.
A primeira questão que indaguei foi “por que uma vírgula após o nome de Clarice?”. Poucas páginas depois de iniciar o livro, entendi: um ponto final é muito pequeno para ser posto ao lado de uma mulher que cria muito mais perguntas do que respostas.
Moser resgata a história de Clarice. Não poupa páginas para relembrar a sofrida imigração da sua família, a fuga da terra da natal, a doença que Mania, mãe de Lispector, contraiu no leste europeu e a tristeza de Pedro, o pai, por todas as responsabilidades de pai de família no novo mundo.
Mas Moser vai além. Observa, nas entrelinhas, as frustrações de Clarice – seja por ter nascido para salvar a mãe, por suas crises de depressão, pelos problemas com os filhos ou pelo divórcio. Porque Clarice, como se percebe na sua biografia, foi muito muito mais triste do que feliz.
O biógrafo não esquece das obras de Lispector. Analisa com dedicação, sempre as relacionando com a vida da escritora. Prefiro os contos de Clarice aos romances, mas devo admitir que Moser se empenha tanto na tarefa de explicá-los, que dá vontade de reler.
Arrisco-me a dizer que, por ser estrangeiro, o autor realiza um estudo mais intenso do que qualquer brasileiro faria. Aos poucos, linha por linha, Moser constrói a história do Brasil junto à história de Clarice. E na tentativa de descobrir um pouco mais sobre esta tão grande escritora, acabamos diante, também, da nossa história como nação.