Estacionei o carro à sombra de uma árvore. A mesma que brincávamos, eu e meu irmão, quando a infância reinava. Retirei a chave da ignição, mas permaneci sentado. Olhei para o edifício ao meu lado direito. Apartamento térreo, persiana fechada. Luzes acesas – vi pelas frestas.
Atrás da janela meu pai me esperava. Velho. Desde que minha mãe faleceu, caminhava com bengala. E esquecia. Um dia não soube dizer meu nome, que ele mesmo escolhera, há setenta e quatro anos, em Rio Grande.
Tive dúvidas se envelhecer é uma dádiva ou um castigo. Ainda as tenho. Respirei fundo, enchi-me de coragem e tirei o cinto de segurança. Fiz movimento para abrir a porta do carro, mas parei. Envelhecer é uma merda.
As luzes continuavam acesas. O que o velho estaria fazendo? Televisão não assistia há muito tempo. Os amigos do dominó não o visitavam mais. E, com as insônias recentes, dormindo ele não estaria.
Deus, faça-me morrer antes! Não quero dar trabalho aos meus filhos. Custar-me-á muito desaprender a comer, beber, andar e falar. Quando for a hora, abençoe-me com a morte.
Eu sei. Eu sei que meu pai me esperou em seu apartamento por intermináveis tardes. Sozinho. Às vezes desci do carro e abri, eu mesmo, a porta de sua casa. Às vezes levei meus netos aos domingos, que brincavam pelo pátio dos fundos. Ele não falava muito, mas ficava feliz. Eu sei que sim.
Mas o que não esqueço, o que me dói na alma e no corpo, é de quando, covardemente, refugiei-me dentro de meu carro, embaixo das árvores. Sem coragem de descer, preferi ir embora.
Fui eu quem matou meu pai. A cada vez que ele ouvia os passos dos vizinhos, esperando que fosse seu filho, o velho morria um pouco. Deixou de viver a cada minuto em que eu ponderei se deveria visitá-lo ou não.
Vê-lo assim me custava saúde. Doía-me assistir seu fim. Meu pai fraco, magro, preferindo o silêncio ao diálogo. Ele, homem que tanto barulho fez na vida.
Quando caminhei para encontrá-lo, era tarde demais. Morto. Com oceanos calados nos olhos, aproximei-me do caixão do velho. Fechado. Pedi que abrissem. Logo! Abracei-o forte. Longamente. Abraços atrasados.
Implorei desculpas. Ele, o mesmo silêncio da vida. Pedi perdão enquanto. Chorei. Ele chorou através dos meus olhos.
*
Hoje é sexta. Agora eu sou o velho que espera ansiosamente pelo domingo, para as visitas da família – que já me matou.